Muito embora eu me considere nova, sou de uma geração diferente da que vejo nas ruas hoje em dia.
Me lembrei então da música Faroeste Caboclo. Não é exatamente uma música da minha geração, mas é uma música que me chamou a atenção, assim como Eduardo e Mônica, talvez por ser uma historinha com começo meio e fim. Fato é que, quando a ouvi pela primeira vez, fiquei querendo saber a letra e, naquela época, peguei uma fita k7 emprestada da minha tia Raquel (que tinha a tal fita) e copiei.
Com minha própria fita k7, mas sem o encarte da fita original, passei boas horas ouvindo, anotando e escrevendo a letra da música, voltando a fita toda vez que a pronúncia do Renato Russo não ajudava. Sem brincadeiras ou exageros, lá se foi pelo menos uma tarde nesse exercício. A música tem nove minutos e dá um trabalhão danado fazer essa transcrição. E eu lá, voltando a fita.
Aliás, voltar a fita é uma dessas expressões que, daqui a uns anos,deve se tornar meio inexplicável, já que, hoje em dia, as únicas fitas que as pessoas conhecem são fitas de cetim, de presentes.
Mas, voltando a fita, depois de tanto investimento (compra a fita, grava a fita, ouve a fita, volta a fita, ouve a fita de novo, volta de novo, ouve de novo, e de novo e de novo), a gente dá mais valor as coisas.
Uma experiência boba, mas muito diferente da que tenho hoje, quando quero uma música (baixo no computador) e quando quero a letra, jogo no google. Assim, tendo as coisas de imediato, qualquer espera vai se tornando longa, a gente vai perdendo a percepção do que é realmente urgente. Outro exemplo são as fotos.
Antigamente, coisa de sei lá, sete anos, as máquinas de fotos eram com filmes. A gente batia as fotos com a esperança de que elas ficassem boas, porque não dava pra ver se alguém tinha fechado o olho, feito uma cara estranha, ficado de boca aberta, virado bem na hora. A gente só descobria essas coisas quando as fotos eram reveladas (e revelar as fotos não era em 1 hora, mas em dias...). Por outro lado, como havia todo um investimento (compra o filme, tira as fotos, leva pra revelar, espera), a gente tinha todas as fotos impressas, e não esquecia nenhuma mofando (como hoje acontece, quando vemos as fotos na máquina ou no computador...
Além disso, sempre havia a chance de, por um azar danado, o filme queimar e queimar o filme é outra expressão que, daqui a pouco, estará completamente dissociada desse sentido original.
E ai hoje, quando pesquisamos letras e músicas em menos de um minuto, quando vemos as fotos na hora, apagamos na hora, tiramos outra na hora, eu fico querendo tudo a tempo e a hora, tudo agora, sabe?
Ontem, quando entrei no carro, estava tocando Faroeste Caboclo. E eu lembrei da letra que me deu tanto trabalho, e me lembrei da adolescente que um dia fui: determinada, dedicada e feliz. E fiquei feliz de ter essa lembrança e de saber que, em algum lugar no meio de mim, essa mocinha ainda existe e vai saber esperar a hora de as coisas acontecerem, sem queimar o filme, se Deus quiser.
PS: Mesmo tendo ouvido 839 vezes a música eu não consegui entender o que o Renato Russo canta no minuto 7:22/7:24. Ainda bem que, no google, consegui a letra. "Se a via-crucis virou circo estou aqui". Dificil, né?
Videozinho do youtube, como sempre, roubado da deiafhm.