segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Vovô Fifi

Outro dia ouvi dizer que toda carta chega a seu destinatário, basta que seja escrita. Por isso, estou escrevendo esta carta, para avisar que a minha dor e meu amor, de mão dadas, atravessaram o oceano pra estar com você nestes últimos dias.

Para dizer que, a partir de hoje, eu não acredito mais que as pessoas morram, porque sei que, em mim, você vai continuar muito vivo. Em mim e, tenho certeza, em todas as pessoas que tiveram a alegria de poder conviver com você nestes 95 anos tão bem vividos. Em mim e em cada um dos seus 12 filhos, 30 netos e 13 bisnetos (até agora).

Continua viva a lição de que doce de leite não vem na porta de casa (que foi o seu jeito de ensinar à minha mãe que quando a esmola é demais, o santo desconfia e que ela me ensinou com as suas palavras). Continua viva a sua expresão de encantamento e alegria quando via o mar, que você amava tanto, apesar de tê-lo conhecido quando já era adulto há muito.

Continuam vivas as caixas de bombom Garoto que você nos dava em nossos aniversários e as palhas de milho que usava para fazer seus cigarros. Continua viva a barba por fazer que esfregava em nossas bochechas e a mão que (há tanto tempo) costumávamos beijar para pedir a benção. Continua viva sua mania de guardar os jornais dos dias super importantes, o que me deu (e ao Dudu também) uma fama considerável quando, na quarta série, levamos ao colégio a edição original do jornal que anunciou a morte de Getúlio Vargas.

Certeza: continua viva essa braveza, ah, a braveza de todos os Ribeiro. Um "aborrecimento" sem tamanho e que, apesar de tudo, nunca diminuiu, em nada, o amor que sentimos pelo senhor. Continua viva essa disposição para o trabalho, para não fugir da raia, para encarar os desafios de todos os dias com dignidade e cabeça sempre erguida.

Continua vivo o último conselho que me deu, com um puxão de orelhas: quando a gente casa, a saia tem que ficar mais comprida, viu?

Continua vivo o orgulho de ter um avô que, depois de uma vida inteira, inventou que queria ser diferente, e se permitiu aprender a dançar. Que se permitiu seguir dançando, mesmo quando já não ouvia as músicas, pelo simples fato de que a vida é mais feliz quando a gente dança. Fica a lembrança do seu aniversário, quando eu, Aninha e Paty decidimos ir na festinha que teria no Clube da Maturidade, e tivemos que enfrentar os olhares desconfiados de suas parceiras de dança.

Continua viva a alegria de ter um avô que nunca perdeu a capacidade de se encantar com os lugares (novos e velhos) e que adorava arrumar sua malinha e viajar, para onde quer que fosse. De um avô que, ao se surpreender com a possibilidade de conversar com o Dudu, do outro lado do mundo, pelo computador, começou a chorar e a acariciar a tela.

De um avô que, como não ouvia, acabava falando mais alto do que deveria no meio da missa. De um avô que amava ser visitado e que, de uns tempos pra cá, passou a aceitar qualquer beijo estalado, fechando os olhos e agradecendo sempre: obrigado, obrigado.

E, quando eu fecho os olhos, lembro do dia da novena, em que, comigo, mamãe e tia Izildinha, você, que não estava ouvindo uma só palavra do que dizíamos, levantou as mãozinhas e começou a cantar: "Em nome do pai, em nome do filho, em nome do espírito santo, estamos aqui..." e as lágrimas que me vieram naquele dia, quando começamos a cantar com você, voltam todas hoje, para simplesmente agradecer a oportunidade de tê-lo tido em minha vida, por todos esses 28 anos.

Sei que, de uns tempos pra cá, você começou a se organizar para ir embora, embora a gente não gostasse (e eu ainda não gosto) desse assunto. Mas também sei que te incomodava muito ir a enterros vazios, e, só por isso, para que você fique mais tranquilo, aviso nesta carta que foi um enterro muito cheio e repleto de amor.

Acredito, por fim, que Deus não te deixou sofrer nenhum minuto e que decidiu te levar para aliviar o seu sofrimento, porque, afinal de contas, Deus te quer sorrindo. E nós também...

Tenho certeza que você está sorrindo e descansando agora, ao lado da Vovó Magui e do Tio Gabriel.

Te amo muito e me despeço pedindo sua benção para continuar.

A benção, vô. 

Laura


sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Quem sabe?



Bobeira é não viver a realidade...e eu ainda tenho uma tarde inteira.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Uma volta de 360 graus

Por muito tempo acreditei que uma volta de 360 graus era uma das maiores burrices que alguém podia falar. Afinal, é uma volta que sai de um lugar e volta pro mesmo ponto, né? Mas, ontem, fiquei pensando um monte nessas voltas que a vida dá, e achei que não era tanta burrice assim, porque, muitas vezes, o que acontece no meio da volta, durante o percurso, faz TODA a diferença.

É o caso clássico de alguém que termina o namoro, sai, paquera, badala, se joga, e, de repente, quando assusta, está ali, cara a cara com o ex, pensando se quer namorar com aquele moço (de novo).

É o caso de alguém que sai de um emprego, tenta outros, e, quando assusta, está recebendo uma nova proposta do antigo patrão.

É o caso de alguém que se forma na faculdade, desiste da profissão que escolheu, e lá vai encontrar com o vestibular de novo.

E ai, nessas voltas INTEIRAS, a gente pode achar tudo, menos que nada mudou. A gente pode achar qualquer coisa, mas não pode achar que estamos no mesmo lugar de antes. Porque, dando uma voltinha de 360 graus, é muita coisa que muda na vida da gente, que muda dentro da gente, e fora da gente também.

Quando a vida  dá uma volta de 360 graus, a pessoa que saiu do ponto é uma pessoa completamente diferente da que volta ainda que os pontos - de partida e de chegada - sejam o mesmo.

Por isso, desde que tenha o tempo de respirar fundo e dar a volta, eu acredito em segundas chances. Em alguns casos, até em terceiras. Por que o mundo dá voltas. E a gente também.


terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Casa

Há um tempo, postei uma ação de marketing de uma operadora de telefonia na Trafalgar Square de Londres, aquela do povo cantando Hey Jude. Por isso, hoje, não poderia deixar de postar essa açao da TAP, no Galeão.

Pra variar, me emocionei, né?

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Era uma vez, num reino beeeeeeeeem distante...

Gente,

eu acho que todas as histórias de contos de fadas foram inspiradas no Reino Unido (especialmente na minha cidade, Aberdeen). É um reino muuuuuuuuito distante (joguem ai no google maps e me falem se não estou falando a verdade). E é lindo, viu?

A minha cidade parece um sonho de princesa... Ainda não entrei nos castelos e tal, mas, hum, vejam por vocês mesmas:







PS: Essa sentadinha no banquinho sou eu. E esse cenario é um pátio interno, absurdo de lindo, na Universidade de Aberdeen.


domingo, 17 de janeiro de 2010

A distância ou à distância

Ficar longe é uma coisa engraçada.

O skype (Deus abençõe o criador do Skype!) e o msn e toda a parafernália tecnológica que hoje existe ajudam a despistar a saudade. Ajudam a gente a sentir que está pertinho, mas, na verdade, a gente não está. E por mais que seja como estivesse, não é bem assim.

Desde pequena, eu (e acho que muita gente) gosto de ver com as mãos. Do tipo que a mãe tem que ficar lembrando: a gente vê com os olhos, filha. Fato é que eu gosto de pegar as coisas (as coisas e as pessoas, mas não no sentido sexual da pegação). Sentir o peso, a textura, a presença. Eu gosto de encostar pra saber que é de verdade.

Esses dias, fiquei pensando que, tantas vezes, a gente dá conselhos para as amigas e fala: é porque de fora a gente tem uma visão mais precisa, mais racional das coisas. Ou a gente solta: eu sei que quando vc está dentro do relacionamento, não percebe as coisas direito, mas eu estou vendo tudo...

Daqui da Escócia, às vezes, me sinto um pouco distante, de fora. A distância faz com que a gente acompanhe a vida dos que a gente ama à distância. 

Eu sei que, de fora, a gente vê as coisas de uma maneira mais completa, a gente percebe todas as nuances, mas, mesmo assim, tem dias que eu preferia estar "de dentro" e "de perto".

E acho que é por isso que eu estava a tanto sem postar. Eu sento aqui e fico um pouquinho triste, sabe? Fico com saudade dessa alegria agitada que é ser a Bonitona Encalhada ai, pertinho de tantas outras Bonitonas Encalhadas que me entendem, na minha própria língua.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Sabe assim?

Sabe assim, tem dia que eu acordo e meio penso: gente, como é que eu vim parar aqui? Não aqui, na Escócia, que é essa lonjura toda, mas aqui, nesses 28 anos vividos, um dia de cada vez, com todas as suas 24 horas e os sessenta minutos de cada hora. Como é que eu me tornei exatamente essa pessoa que eu sou hoje.

É mais ou menos a sensação que tenho quando confiro meu extrato: gente, onde é que foi parar meu dinheiro? Porque, às vezes, a gente gasta um tanto (de tempo e de dinheiro) com coisas que a gente nem percebe.

E ai, tem muitas horas que eu penso, como são engraçadas as compensações da vida: coisas que comem um tempão e não vamos lembrar nunca mais. Segundos que vão ser repassados cem mil vezes nas telas que aparecem quando fechamos os olhos, segundos que são tão importantes, que duram anos na nossa memória.

E, eu penso de novo, se não são mesmo irônicas essas compensações: coisas que nos tomam um dinheirão e não tem importância nenhuma, coisas que são totalmente grátis, mas que valem muito mais que milhões.

Enfim, é a vida, sabe assim? Se é que vocês me entendem...