terça-feira, 30 de setembro de 2008

O buquê de ouro

Quando ele entrou na igreja, meu mundo parou.

Meus olhos estavam fixos, parados, e ele brilhava. De verdade.

Por mais que já soubesse que ele existia, que ele era exatamente daquele jeitinho, assim, ao vivo, era muito mais que eu podia imaginar.

Fiquei hipnotizada, catatônica, perplexa, embasbacada, estática. Fiquei bege. Depois vermelha de alegria e timidez, mas não conseguia para de olhar.

Afinal, aquilo não era um buquê.

Era "o" buquê.

Aquele depois do qual, todos os outros seriam raminhos. Aquele depois do qual, nenhum ouro faria sentido.

Um buquê como aqueles não era superstição, era quase uma certidão de casamento. Agora eu caso, pensei. Tem que ser meu!

A missa foi maravilhosa, mas eu estava flertando, deliberadamente, com ele. Olhava, babava. Me peguei fechando a boca algumas vezes. Sonhei com ele no meu quarto, do lado da minha cabeceira. Afinal, era um buquê imperecível, sem validade, eterno, como os diamantes. Ouro, prata e bronze, um pódio todo para uma única felizarda (eu, eu, eu!).
De repente, um porém me ocorreu. Como seria o arremesso do buquê de ouro?

Eu sabia de antemão que ele era de metal, mas não tinha refletido sobre a questão de ordem prática. Já imaginei o buquê voando pelos ares e atingindo em cheio o olho de uma bonitona encalhada e, dali em diante, cega. Pensei em como meu traje era inadequado, eu precisava de um protetor de cabeça, de luvas que evitassem cortes nas mãos e garantissem a firmeza da pegada. O protetor até podia ser considerado um acessório do penteado, como tantos outros estranhos que se vê por aí.

Porém, assim como os caçadores de ondas gigantes vão para o Hawai em busca do sonho, estava eu, disposta a tudo. Disposta até a uma buquezada na cabeça, um corte, um breve desmaio, se fosse o caso. Agora, tudo o que me restava era pensar nas táticas e torcer.

Já na sala das fotos com madrinhas, flertei com ele. Posei, fiz mantra positivo: meeeeeeeeeeeeeummmmmmmeeeeeeeeeuuuuuuuuuuummmmmmmmmmmeeeeeeeeeuuuuu....


E aguardei super ansiosa o grande momento.

Qual não foi minha surpresa quando vi a noiva subir ao palco sem o bendito. Como assim, ele não estava lá? Será que roubaram num momento de distração do cerimonial?

Apesar de todas as minhas teorias sobre o assunto, na hora, fiz tudo errado. Eu tinha bebido, estava com tomara que caia, as manguinhas do vestido eram um terror para qualquer levantamento de braço e, mais que isso, minha desilusão não me deixava pensar direito. Pior que tudo: fui nominalmente chamada - de bonitona encalhada!

Depois do tradicional suspense, as flores foram ao ar e, qual não foi minha surpresa, quando os ramos se partiram, cada um voando na direção de uma das bonitonas, e um deles, diretamente para mim. Preciso confessar. Em casa de ferreiro, espeto é de pau. Não lembrei de nenhuma das minhas próprias dicas e voei rumo ao que era meu no coração. Se naquele casamento eu não pegasse o buquê, senti que não pegaria nunca mais.

Quando senti as flores na minha mão, preciso confessar: tudo fez sentido. Aquele humilde mini tufinho de tulipas rosas foi, para mim, muito mais que um buquê de ouro-prata-bronze ao mesmo tempo. Era o meu buquê de ouro, o buquê que selava meu destino. Sendo seis os buquezinhos originais, estou considerando que sou uma das seis próximas nubentes. Será? Ou melhor, serei?

Cenas do próximo post


domingo, 28 de setembro de 2008

Igualmente felizes

Precisarei fazer uma pausa no flash back por um motivo que considero bastante justo: este fim de semana teve casamento! O que, em outras palavras, significa: muitos casos e pensamentos para contar. Resumindo, é hora de fofoca.

Os homens costumam dizer que as mulheres são fofoqueiras, e não acho que estejam totalmente errados. Só não acho que fofocar seja algo necessariamente pejorativo. Fofocar, para mim, é falar bobagem, contar casos e, de vez em quando, fazer pequenas críticas construtivas a respeito de algumas coisas/pessoas. Ninguém precisa sair por ai falando mal de ninguém, inventando coisas sobre pessoas. Acho uma bobagem os homens ficarem criticando as horas intermináveis de conversa entre amigas. É nossa hora de trocar experiências, rir, descontrair e aprender com os erros umas das outras.

Aproveito esse mini-tema pra perguntar: existe hora melhor de uma fofoca express do que a hora de ir ao banheiro em festa? Obviamente, como ninguém fofoca sozinha, sempre precisamos de uma amiga: pra ver se o batom está bom, se a calcinha está marcando, se o bonitão da outra mesa está mesmo te encarando, se a entonação de uma determinada frase foi a mesma que você achou que fosse...enfim, para resolver pequenas angústias e te liberar para ser feliz nos eventos.

Após essa breve divagação, e, como sou muito fofoqueira e não vou torturar ninguém, vamos fingir que o post de hoje é uma idinha ao banheiro feminino e ir logo ao que interessa: fofoquinhas de felicidade.

O casamento foi muito esperado. Muito mesmo. Inclusive, foi o do noivo com apendicite súbita. O da igreja de paralelepípedos. O do dia da chuva que, aliás, deu o ar da sua graça (quer dizer, deu a água da sua graça, porque poucas vezes na vida vi tanta água caindo). Só que esse foi o único porém (que nem chegou a ser um porém de verdade). Um casamento sem senão, sem ressalvas, sem defeitos.

Sinceramente, acho que Deus, em toda sua plenitude, sabedoria e bondade, ao mandar aquele chuvaréu todo, quis dar um puxão na orelha das mães (da noiva e do noivo) pra elas lembrarem que Ele é quem faz coisas perfeitas. Um pito de Pai, sabe? Como quem diz: olha só, vocês duas tem que lembrar que quem manda aqui sou Eu! Então, na parte dele, mandou uma tempestade que atrapalhou o trânsito, mas que, nem de longe, ameaçou tirar o brilho da festa, nem dos olhos dos noivos, nem de quem estava ali, participando daquele momento com eles.

Pode ser também, na minha interpretação, que Deus estivesse emocionado com aquela lindeza toda (porque eu, pessoalmente, estava à flor da pele, de tanta alegria) e não conseguiu conter as lágrimas. Obviamente, as lágrimas divinas devem ser algo grandes e volumosas, e daí por que tanta chuva. Entretanto, a chuva foi o de menos e não merece mais do que dois parágrafos dessa história.

Uma das vantagens de ser madrinha é que você pode ser várias vezes, sem perder nunca a emoção do momento. Ninguém pode casar na Igreja Católica Apostólica Romana mais de uma vez, mas não há restrições numéricas para ser madrinha, e eu sempre acho muito especial, principalmente sendo bonitona encalhada, confesso: adoooooro entrar (ou sair) na igreja pelo tapete vermelho.

Outra das vantagens de ser madrinha bonitona encalhada é que a gente pode investir tudo em nós mesmas. Sem marido, filhos, despesas significativas, podemos sonhar com o vestido, com o cabelo, a maquiagem, e ficar lindas como a noiva merece que a gente esteja.

Agora: sendo eu quem sou, um pé na breguice, outro no encalhamento, mesmo quando dou o meu melhor, corro riscos.

Dessa vez, não podia ser diferente.

O vestido foi escolhido com antecedência. Pedi autorização em três vias pra poder ir de preto (pra quem não sabe, há restrições ao uso de preto por madrinhas). Investi pesado no make, nos acessórios, no cabelo. Planejamento e logística profissionais. Chegando na igreja, estava radiante, quando, de repente, vejo outra madrinha. Com o mesmo vestido que eu.

Sou contra colocar fotos minhas no blog, mas esse caso merece a exceção.
Nunca tinha passado por isso na vida, mas, como dizem por aí, tudo tem uma primeira vez. E, como também dizem: a primeira festa de vestido clone a gente nunca esquece. Pronto, já senti que o casamento prometia.
Na hora, a primeira coisa que me veio à mente foi: tanto homem com terno igual aqui, ninguém acha estranho. Agora, eu, vou ser vítima de mil olhares e comentários. Mulher sofre, viu?
Passado o choque inicial, a vontade de sair correndo e ir em casa trocar de roupa, cogitei pedir ao cerimonial que nos deixassem entrar como damas de honra adultas. Afinal, as duas são solteiras e está super na moda usar amigas como damas. Depois, me ocorreu que poderia causar danos emocionais irreversíveis às daminhas que já estavam a postos, e desisti da idéia.
Logo em seguida, decidi sair espalhando pela festa que a noiva havia eleito duas super-madrinas tipo umas madrinhas "vip" que deveriam usar aquele vestido. Quem sabe dizer que nós duas estavámos nos Estados Unidos recentemente e que tínhamos achado que era pra irmos iguais...Também desisti para não indispor a noiva com as demais madrinhas.
Sem saída, decidi deixar prá lá. Rir. Abstrair. Pensei: adoro minha madrinha-gêmea; será um ótimo tema para o blog; nosso vestido é lindo de morrer, e eu estou pagando-o em sete suadas prestações, o que significa que pretendo usá-lo novamente e, quem sabe, encontrar outras bonitonas encalhadas circulando com ele por ai.
Enfim, decidi não me importar com coisas que, na verdade, não importam. Decidi ser feliz naquela noite tão esperada, tão sonhada, tão perfeita. Melhor, decidi ser feliz. Ser feliz, é sempre uma opção. E a minha opção, é ser feliz sempre.

Acima, a madrinha bonitona encalhada e Cacá, no dia dela, de conto de fadas, que merece a legenda: "e serão felizes para sempre".

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Correndo para o altar


Quando eu falo que a vida é muito mais criativa que qualquer imaginação, tem gente que não acredita. Aí, me surge, na Bielorússia, uma corrida só de noivas, em que a primeira colocada ganha um casamento com tudo pago.


Não sei por que, algo me diz que deve haver, simultaneamente, uma corrida de noivos, em sentido oposto.

Aqui o Brasil, onde corrida já é o esporte da moda, podiam lançar uma dessas também. Ia ser bom se o prêmio incluísse um noivo, né?

Pra quem quiser conferir, o link da notícia é este: http://g1.globo.com/Noticias/PlanetaBizarro/0,,MUL767892-6091,00.html

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Entrando numa fria às escuras

Depois do acidente com o motoqueiro, pedi ajuda às universitárias, todas minhas amigas, e encomendei um encontro às escuras. E atire a primeira pedra quem nunca aceitou participar de um evento desses.

Pois bem. Na verdade, eu pré-aprovei o candidato. Tinha conhecido-o preliminarmente num churrasco na casa da minha amiga (a que ia providenciar tudo), e achei que ele era bonitinho, expansivo, conversado, enfim, tinha chances de dar certo.

Naquele tempo, eu ainda não tinha uma definição do que seria dar certo e nem maturidade para entender alguns sinais óbvios e evidentes. Em geral, hoje, posso dizer que homem expansivo demais, hum, é expansivo demais.
Em tempos de David Beckham e outros ícones maravilhosos da metrossexualidade, eu confesso, se vendessem homem em concessionária, o meu ia ser bem básico, quase sem opcionais. Desodorante, perfuminho, unha limpinha, orelhas idem, cabelo em ordem, pança discreta e só. De resto, não gosto de homem com muito frufru (pânico absoluto de unha feita e com base, mil e duzentos adereços dourados, escova progressiva, cabelo muito estiloso ou, pior ainda, com qualquer tipo de luzes, mechas ou tintura).
Só que, às vezes, os sinais não são tão evidentes, e lá fui eu, totalmente desavisada, pro meu encontro. Chegando no local (um barzinho, básico, bem normal), o expansivão começou a tagarelar. Eu ouvia, ouvia, ouvia e pensava: "Deus, será que tenho que levantar a mão pra falar?"
O moço, encantado com ele mesmo, resolveu, enfim, me dar a chance de participar do que até então havia sido um monólogo:
- Aqui, mas você tem preconceito com homem que se arruma?
-Eu? De jeito nenhum.
- Ah, pois é, porque eu me cuido mesmo! Acho um absurdo sair com o cabelo de qualquer jeito, sabe? Olho vitrines, pesquiso tendências, agora por exemplo, tô adorando umas calças pescador de tactel, com sandália de couro, blá, blá, blá...
Nesse momento, meu radar interno de frias já disparou. Como assim pesquisa tendências? Achei esquisito, mas continuei ouvindo (já que nada mais me restava a fazer mesmo)... E ele:
- Então, ai, estava muito gordo, resolvi fazer uma dieta nova, vi na Boa Forma...Menina, minha barriga tava igual uma pochete, tipo uma bóia... Mas agora tá assim - levantou a camisa e mostrou a barriga!!! - MA-RA-VI-LHO-SA!
E eu pensando: menina? leu na Boa Forma? Dividiu em sílabas?
É como recomenda "A Profecia Celestina": preste atenção nos sinais. Ele gostava de pesquisar tendências, lia Boa Forma, me chamou de "menina", dividiu em sílabas... E prosseguiu com sua metralhadora falatória:
- Então, vou morar na Espanha seis meses para aprimorar meu espanhol. Tendria que no tener pancita ninguna! Hablas espanhol, chica? (gesticulando, e aumentando o tom de voz) Pois yo hablo muuuuuuuy bien.
Tive a impresssão de que as pessoas ao lado começavam a me olhar. O radar orelha disparou. Quente e roxa instantaneamente. Depois de uns 40 minutos, minha amiga (noiva, pra variar)chega com o namorado. Meu par estava numa euforia incontida:
- Noivaaaaaa. Acho tudo essa mulher! Adoro casamento. Porque, meu filme preferido, é "Um lugar chamado Notting Hill", e au amo aquela música "She", sempre me imagino dançando como a primeira música dos noivos.
Nesse instante, arregalei os olhos para minha amiga, condenando-a para sempre: como é que você me indica isso, meu olhar gritava com ela. Ela desviou o olhar, fugindo da minha bronca olhística. Tudo bem que meu filme preferido também é "Um lugar Chamado Notting Hill" e eu também imaginava "She", mas essa não era exatamente a coisa que eu esperava ter em comum com um pretendente.
A partir desse momento, aproveitei-me da presença de outra fêmea para evitar o moço. Depois de algumas doses (dele, obviamente, pois evitei qualquer bebida que atrapalhasse meus reflexos), evitar um beijo era quase como lutar com o Neo no Matrix. Minha coluna já estava estalando. Pensei em implantar qualquer sujo no dente, pra ver se o moço ficava com nojo, mas não estávamos comendo nada (pela Boa Forma, nada no cardápio do barzinho era adequado).
Enfim, depois de muito esforço, resolvi jogar um papo acabei-de-terminar-e-não-estou-pronta-para-um-novo-amor e deu certo. Decidimos ir embora.
O pior, pra variar, ainda estava reservado para dentro do carro.
Silêncio, finalmente. Ele pergunta se eu me incomodo de ligar o som. Não me incomodo. O som estava assim, vibrando até meus cabelos. Não ouvia nada. O carro era praticamente um trio elétrico, só que com música de boate.
Meu acompanhante, aos berros, tenta conversar:
- E ai, Laura, você gosta de dançar?
Eu também aos berros:
- Gosto.
Juro que ouvi a frase a seguir, mas, considerando o volume do som, pode ser que eu esteja enganada:
-Nossa, eu amo dançar. Às vezes, vou sozinho pra boate. E ME REALIZO NA PISTA DE DANÇA.
Pra quem não é fera em inglês, "realize", em inglês, é perceber. Então, depois dessa, quem realizou tudo fui eu. Agora, esse encontro às escuras estava totalmente às claras. Pensei: gente, se esse aqui não é, é com certeza o primeiro da fila. E já que a fila que ele estava não era pra me namorar, sai bem rapidinho do carro que, pelo menos dessa vez, estava em perfeito estado.

Procurando agulha no palheiro

Agora que já expliquei minha teoria de encalhamento, que já expliquei que tenho namorado, vou fazer um super flash back neste blog, para contar minhas breves desventuras de "totalmente- solteira-tentando-arrumar-um-namorado-logo". Sei que, como os homens são todos iguais, é provável que alguém já tenha passado por situações parecidas com as minhas, então, vamos compartilhar os fracassos, pra continuar evoluindo.
Como já contei, namorei dos 14 aos 21, o que significa que, praticamente, não tive adolescência como a maioria das pessoas. Nâo tive vários paqueras, não sai com turminhas de amigas, então, os anos de treinamento no rastreio de espécimes masculinos interessantes foram nulos. Por isso, tão logo fiquei solteira, fiquei também meio perdida, sem enteder muito bem os procedimentos e regras que regem o desconhecido e temido, para mim, pelo menos, o mundo da balada.
Minhas amigas, ótimas todas, já tinham passado da fase. E eu, lá, achando que tinha que viver tudo o que não tinha vivido em sete anos, em uma única noite, mas sem ter nem a mais remota idéia do que seria esse "tudo" a ser vivido.
Um enigma, uma aventura. Ou várias.
Como não entendia as "regras da noite", o primeiro paquera que me apareceu foi no estágio. Ele não era do mesmo escritório que eu, mas sempre estava nos mesmos tribunais, nas mesmas secretarias, e ai, eu, no auge do meu assanhamento, perguntava:
- Ei, tá jóia?
Verdade. Não sabia nada, nem olhar paquerando, nem que assunto puxar, nada, nada, nada. E nessa eu ia, dia após dia, dando oi, tchau e torcendo pro menino estar lá no mesmo horário que eu. Só pra ver de longe, sabe? Essa sensação quase infantil de frio na barriga, coração disparando? Tudo isso no mundo das idéias, claro.
Preciso dizer. Ele era bem bonitinho, sempre respondia minhas perguntas (também, era o que me faltava eu perguntar que horas são e ele virar a cara...) e era muito educado, mas eu não sabia nada, só onde era o estágio dele (pelo timbre do papel que ele entregava no protocolo). Toda mulher é um pouco Sherlock Holmes.
Nessas idas e vindas, passaram-se quase dois meses da mais pura paixão platônica e imaginária quando, subitamente, eu ia saindo de um dos Tribunais, carregando um milhão de quilos em papel (de salto alto, com meu metro e cinqüenta e oito centímetros de altura), e ouço uma voz:
- Ei! Você quer uma ajuda com esse peso todo?
- Quero, se não tiver problema. - orelhas iniciando o processo de super aquecimento.
- Problema nenhum, sempre te vejo indo pro mesmo lado que eu.
- Então, tá. Aceito demais - bochechas vermelhas, orelhas roxas.
- Meu carro é aquele ali.
Fomos andando até o carro do moço. Em silêncio, claro. Eu tentava respirar menos afobada, pra ver se o rosto esfriava, mas, sem sucesso. O carro estava perto.
Pra ser bem sincera, o meu estágio era bem perto também. Podemos dizer que o carro estava quase na metade do caminho entre o Tribunal e o escritório. Porém, eu não podia perder a oportunidade.
O carro era uma picapezinha, super bonitinha. Gosta de aventuras no mato, pensei. Elogiei o carro, porque, como sabem, elogiar carro de homem é tática certa em 80% dos casos. Entrei sentei, pus o cinto e, como também acontece em algumas das vezes em que fico nervosa, disparei a falar (bobagens) e a inventar assuntos aleatórios: esportes, festas, baladas, queria saber qual era o ambiente que o moço frequentava, quem sabe eu não aparecia assim, do nada, por lá? Chegamos em um semáforo (sinal, aqui em Belo Horizonte). Pelo menos ele não mencionou nenhuma namorada, pensei.
Meu escritório era do outro lado da rua, eu só teria que atravessar, quando ele, gentilmente disse:
- Laurinha (gostei demais do Laurinha, me desconcentrou), você se incomoda de descer enquanto o sinal não abre? É que tenho que virar aqui vai ficar mais longe pra você, e a volta é muito grande...
Completamente constrangida, catei meus papéis correndo, abri a porta do carro e...
ouvi um barulhão.
Sem olhar pro retrovisor, eu não tinha visto o motoqueiro que se aproximava cortando o trânsito (como todos os motoboys) e que, agora, estava no chão da rua, atordoado. Quando meu amigo saiu, o piloto das duas rodas disparou um xingatório sem fim, disse que ia processar, chamar o Detran, enfim, fazer tudo o que tinha e que não tinha direito.
A porta estava arranhada, o retrovisor caiu no chão e meu rosto inteiro, sei lá, devia estar berinjela, de tão roxo.
Depois de acalmar os ânimos, pedi mil desculpas, arrasada. Era o que me faltava. Não satisfeita em bater meu próprio carro, quando estou ao volante, eu agora também bato o carro dos outros, quando sento no banco do passageiro, refleti.
Ofereci para pagar o conserto, ele, muito gentil, não aceitou, disse que não era nada.
Depois de um evento desses, ou as pessoas se odeiam para sempre, ou se tornam mais íntimas do que eram antes, e, pelo menos isso, ficamos amigos. Amigos virtuais, principalmente, ele até me acrescentou no messenger, volta e meia ainda conversa comigo.
Mas nunca mais ofereceu carona.

domingo, 21 de setembro de 2008

A teoria do encalhamento


Atendendo a pedidos (e provocações), até que enfim, a minha teoria do encalhamento.

Preciso dizer uma coisa a vocês.

Para mim, estar encalhada é um problema de estado. Estado civil, no caso.

Pronto, falei. E é isso mesmo.

Minha teoria, científica, embasa-se sobretudo no fato de que formulário NENHUM DO MUNDO tem a opção "namorando", "enrolando", "ficando", "morando junto", nada disso. Nem "noiva com data marcada". OU você é solteira OU você é casada, e ninguém escolhe a opção "casada" se não foi ao cartório e fez o devido registro, porque, por mais que você se sinta casada e tudo mais, casar, para a sociedade conservadora em geral, é só no papel mesmo.

Preciso desmistificar também a questão do encalhamento ser um problema. Não é. Aliás, não é necessariamente, mas pode ser em alguns casos.

É que, assim como as gordinhas podem ser felizes ou infelizes, as loiras podem ser burras ou inteligentes, os carecas podem ser de quem elas gostam mais ou de quem elas gostam menos, os de óculos podem ser de nerds ou de Clarks Kents, há encalhadas e encalhadas e muitas delas são encalhadas voluntárias, totalmente bem-resolvidas com isso e, outras, estão ai, sofrendo horrores por ainda não terem um marido pra chamar de seu.

Agora, alguém tem coragem de dizer que aquela pessoa que namora há 822 anos e que encontra-se nas mãos de um bonitão enrolador é desencalhada? Aquela que já ouviu mais de 1252 vezes o caso de alguém que namorou também 822 anos, terminou e casou em menos de 6 meses, com um olhar de compreensão, pensando, no fundo: onde você quer chegar com essa historinha, é desencalhada?

Aquela que está com um enxoval completamente desatualizado, porque compra (e ganha de parentes) peças há mais de 5 anos, aquela que não passa imune a um lançamento de buquê, que é sempre, sempre, sempre, chamada nominalmente pela noiva, é desencalhada pra você? Aquela que um namorado acomodado que, quando alguém da família pergunta:

- E o noivado, fulano?

Tem a resposta infame:

- Ah, deve ser depois de julho...

E o complemento:

- Quer dizer, Júlio, meu primo de 5 anos.

E que, não satisfeito, diz que quem gosta de pedido é telefonista de pizzaria; que casamento é que nem piscina gelada, um pula e fica chamando os outros pra todo mundo se dar mal; que se fosse bom não precisava de testemunha; que casar é que como doença, porque as pessoas "contraem" matrimônio...

Se você tem um espécime raro de sensibilidade masculina como esse ao seu lado, isso lá pode ser considerado desencalhamento?

Amigas, esse negócio de eternos namorados só é bom DEPOIS de casar. Ninguém quer um namorado eterno não. E nisso, posso falar de cadeira: namorei 7 anos (dos 14 aos 21) e agora estou indo pro 5º de um namoro novo (acho que o atual quer superar o ex, eu mereço!). Blogueiro, blogueiro meu, existe alguém mais encalhada do que eu?

Não precisa responder. Espero mesmo que haja outras encalhadas por ai, mas queria explicar isso: entendo o encalhe como um conceito bem abrangente. E tem ficante bonitona encalhada muito mais feliz que bonitonas encalhadas num relacionamento.

Encalhar, pessoas, para mim, é ficar parada no tempo, enquanto as coisas a nossa volta evoluem. Todo mundo casa, menos você. Todo mundo namora, menos você. Todo mundo cresce profissionalmente, menos você...

Quando uma baleia (sem trocadilhos) encalha na praia ou um navio encalha nas pedras, quem encalha é porque parou te ter novidades na vida, e está lá, querendo dar um novo passo, conhecer uma nova rota e não consegue.

Por isso, posso afirmar com certeza, existe muita encalhada que não se sabe encalhada, achando que um namoro já salva alguém. Encalhar é querer ir além em qualquer sentido e não ter companhia.

Enfim, volto a dizer: a bonitona encalhada, infelizmente, sou eu. Muito prazer!

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Só hoje

Em tempos de lei seca, aviso aos navegantes: não bebo. E mesmo sóbria, dirijo pior do que muitas pessoas completamente embriagadas, como, inclusive, já contei.
Não sei dizer das minhas qualidades, mas assumo todos os meus defeitos e não os escondo de ninguém, até me orgulho um pouco deles. Assim, fica mais fácil explicar quando as coisas erradas acontecem. Costumo só comentar: eu te disse que eu era desse jeito, ou, eu te avisei que eu não sou boa nisso.
Meu problema na direção é tão sério e tão sabido, que mesmo com essa história de não poder beber nada, as pessoas ainda assim se recusam a me passar as chaves dos carros. Chegam ao absurdo de pedirem táxis, comigo lá, me prontificando a assumir a direção e deixar todo mundo seguro em casa.
Eu andava meio incomodada com isso, até o dia em que meu pai, com a sinceridade extrema que lhe é peculiar, me explicou, didaticamente e sutil como uma pisada de elefante: filhinha, é que, do jeito que você dirige, o policial nem precisa do bafômetro para dizer que você está bêbada e, mais que isso, o conserto do carro pode ser bem mais caro que a multa. Com o táxi o prejuízo é menor, amanhã a gente busca o carro.
Não pude nem refutar. Sempre dou umas batidinhas. O retrovisor, a roda, laterais das portas, essas partes mais externas do carro, em geral, acabam ficando amassadinhas mesmo. Posso dizer que, em carro que eu dirijo, o pára-choques justifica seu nome auto-explicativo.
Só que, nem sempre foi assim. Quer dizer, eu sempre dirigi muito mal mesmo, desde as 72 aulas de auto-escola, mas a parte de não beber é nova.
A minha resistência ao álcool não é das maiores, fico fácil e visivelmente embriagada com pequenas doses do que quer que seja, até uns dois bombons de licor já me deixam assim, levinha...
Não sei, talvez uma espécie de castigo divino tenha recaído sobre minha cabeça, Deus esqueceu de me dar essa capacidade de beber e de me drogar, justamente porque já me fez naturalmente avoada e com uns pensamentos delirantes, desses que a maioria das pessoas normais (quem são as pessoas normais mesmo?) tem quando bebe ou se droga.
Eu, se fosse me definir, além de bonitona encalhada, diria que nasci bêbada e auto-censuro a maior parte de minhas idéias e empolgações, porque as pessoas sóbrias simplesmente não entendem.

Os sintomas de bêbado, todos, manifesto-os sóbria. Choro sem motivo aparente e sem ser véspera de menstruação, danço como se ninguém estivesse olhando, declaro meu amor aos amigos, rio, dou vexame, o pacote completo. Porém, a decisão definitiva sobre a abstinência alcoólica precede a nova lei.
Vamos direto ao problema, que depois eu me explico: acho que vomitei na minha sogra. É verdade.
Se você está se perguntando como a bonitona encalhada pode ter sogra, guarde sua dúvida para daqui a pouco. Vou respondê-la em breve. Porém, é possível que o vômito esteja diretamente ligado ao encalhamento.
Dito isto, vamos ao caso.

O caso é que a temperatura da cidade estava um horror, o que me faz ter novas intenções legislativas (além de proibir ruas de paralelepípedos) de também proibir o trabalho quando a temperatura ultrapassa os 30º e obrigar todos a se dirigirem ao clube mais próximo. Esperei, a semana inteira, pelo sábado de sol...
Acordei, linda, leve e solta, numa manhã ensolarada na fazenda e, obviamente, fui à piscina. Deitei na espreguiçadeira e, pronta e inadvertidamente, aceitei uma caipvodka preparada com todo o carinho pelo tio Paulo. Estávamos nós, ali, mais família impossível, sogra, sogro, meu namorado, repito: na-mo-ra-do, um tio e uma tia, éramos seis e, de repente, o improvável.
Beberiquei dois copinhos, pequenos, talvez dois e meio, conversei alegremente e exaltadamente sobre coisas e valores que, às vezes, me angustiam e incomodam. Não cheguei a ficar bêbada, fiquei bem sincera, bem aberta, falante, mas não ébria dando vexame. E, depois de um mergulho, lá estavam elas: quatro Patrícias em minha frente.
Esclareço nesse ponto que não tenho nada contra minha sogra, muito pelo contrário. Acredito até que poderia conviver com 4 delas (e acho até que já convivo, haja vista a existência das melhores amigas). Porém, naquele momento, não entendi nada: estou louca?
Não, não estava louca, estava bêbada. Muito.

Tentei ainda, por alguns micro instantes, fechar os olhos e esperar o enjôo passar, mas a cabeça pesava e o mundo, mais do que nunca, girava. Olhos fechados, senti que vinha tudo de volta, no caminho errado, trajeto estômago rumo à boca, e veio tudo, caipvodka, água, sei lá, e meus olhos não abriam, não vi nada.
Depois da primeira vez (sim, outras vezes se seguiram à primeira), de um vômito (que eu insisto chamar de vumito) incontrolável e sem alvo - o que ainda hoje me aflige, diante da perspectiva dos respingos atingindo alguém - ainda tentei recuperar alguma dignidade, mas meu corpo não mais respondia. Virei uma plasta amorfa (sabe quando você se deita, de biquíni, e todas as banhas se espalham? pois é, foi assim), vomitante e sem abrir os olhos.
Talvez eu tenha dito algo, espero que nada comprometedor, ouvia vozes longínquas de preocupação, mas nada no mundo fazia minhas pernas obedecerem aos meus comandos de levantar. Horas depois, aos cuidados dos pais do meu namorado (que tentava encontrar os meus pais, meus donos e protetores nesses momentos), desperto e me dirijo à sala, onde, por mais que conseguisse me manter acordada (e menos exposta) nada se mantinha em meu estômago.
Considerando esse episódio, somado a outro numa festa de semana santa (que deu origem ao já lendário "kit Laurinha", composto de plasil injetável e dramin moído, com gatorade para reidratar), acho que sou alérgica a álcool (teoria do sogro, sempre educado), ou talvez tenha sido apenas um dia ruim. Minha mãe, criativa e inesperada, criou uma série de explicações: deve ter sido uma combinação explosiva de choque térmico com chicletes de barriga vazia, e algumas outras que não amenizaram meu desconforto...
Pois bem, vocês podem imaginar como foi o domingo, de recuperação do corpo ainda debilitado e a segunda feira. A maior ressaca moral quase superando a física.
De toda forma, estou aqui, agora, escrevendo o texto da redenção. Acho que é um texto de cura, como poderia sugerir Freud.
Até onde eu entendo (bem pouco) de Freud, têm coisas que Freud explica, mas explicar Freud, bem explicado, acho que nem ele. Arrisco. Freud achava que se o paciente entendesse o problema, a origem inconsciente de seus sintomas, estaria curado. No entanto, meu texto não explica bem a origem, não sei porque fiquei tão mal, nem porque bebi, mas depois do dia, evito contatos alcoólicos. Inclusive em casamentos.
É triste perceber que nunca serei uma mulher chique, altiva, dessas que sempre estão bem e plenas com uma tacinha na mão.
Todavia, quando não consigo me conter e tomo a primeira dose, é bom que alguém me contenha, porque, como dizem popularmente, a outra mulher que se apodera de mim após uns drinques é de uma energia impressionante. No último casamento, ela, a louca embriagada, desceu até o chão, fez discurso para os noivos, dançou dança da cordinha, puxou escola de samba se sentindo “a” mestra de bateria. Isso não tem explicação freudiana que resolva. Será que quando eu bebo meu inconsciente domina o consciente? É versão do meu cérebro para a revolução do proletariado?Por tudo isso, cada vez que recebo um convite de casamento, já me preparo como se fosse freqüentar uma reunião do AA.
Hoje não vou beber. Só hoje.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Apertos em geral

"Estou apertada" é uma frase que tem muitos sentidos possíveis. Para entendê-la, é sempre necessário contextualizar.

Estar apertada de dinheiro é horrível; de tempo é sufocante; na roupa é constrangedor; no sapato é doloroso. Porém, nada me parece pior do que estar apertada para ir ao banheiro.

Quando se está apertada de dinheiro, restringe-se a gastança, faz-se um empréstimo, dá-se um jeito.
Apertada de tempo, trabalha-se até sabe-se lá que horas, diminuem-se os compromissos, explica-se às amigas o afastamento.
Apertada na roupa: regime ou assumir que você não veste mais 36 é uma boa saída. Terapia talvez.
Sapato apertado é péssimo, pode acabar com uma festa, com seu humor, com sua unha encravada, mas, fazer o quê? Ir para casa e descansar de pernas pra cima.
Agora, apertada para ir ao banheiro, quando não é possível ir ao banheiro, não tem solução. É o pior e ponto.

Eu, por exemplo, sofro muito com isso. Seguindo rigidamente as instruções de todas as revistas femininas, dermatologistas, amigas e da minha mãe, bebo muita água. Por isso, como já era de se esperar, faço muito xixi. Muito mesmo. Um xixi considerável a cada hora e meia, pelo menos. Porém, como que para compensar o hábito mictórico, tenho o intestino preguiçoso.

Então, no meu corpo, é assim: enquanto os rins trabalham que é uma maravilha, o intestino fica lá, dias, sem dar notícia, pensando se vai fazer o serviço dele, ou se deixa tudo acumular e resolve de uma só vez. Enquanto isso, fico à mercê dessas duas partes de mim, tão complementares e tão diferentes.

Na verdade, além de não trabalhar, meu intestino a-do-ra fazer uma propaganda de que trabalha. Em outras palavras, meu intestino é ruidoso. Assim, se eu como uma coisa mais pesada, minha barriga (alguém mais já pensou que o que a gente comumente chama de barriga é, de fato, o intestino?) faz barulhos altos, nítidos, como se fosse um pum (ou vários puns). Se eu não como nada, também reclama. Quando estou sozinha, ou em casa com meus familiares, isso até é tolerável, mas, em situações públicas, é um horror. Reunião com um cliente. Eu lá, sentada ouvindo, vem o barulhão:

-RRRoaaaaaaaaaaaaaaaaaarrrrrrrr....

Sala de aula. No meio da prova, silêncio total. Lá vem ele:

- RRRRRRRRRRoooooooooooooooaaaaaaaaaaaaaaaaaaarrrrr...

É quase um rugido.

Sempre sorrio amarelo, e logo assumo a autoria, para evitar constrangimentos: "Nossa, me desculpe, minha barriga está com uns problemas, estou fazendo um tratamento super complicado, enfim, dou uma exageradinha básica no meu sofrimento, pra tentar converter o julgamento preliminar das pessoas de nojo para dó. Como um advogado que pleiteia uma pena menor, sabendo da impossibilidade da absolvição.

Enfim, é óbvio que essa minha característica não é exatamente um atrativo para o sexo oposto, e acaba agravando o encalhamento de qualquer mulher, principalmente o meu, no caso.

Tenho um grande amigo que costuma dizer que intestino preguiçoso só existe porque nós, mulheres, somos ensinadas a ser sempre femininas, limpinhas, cheirosas, e, por isso, temos vergonha de fazer o famoso "número 2". Se o resultado fosse rosa e tivesse aroma floral, com certeza, todas as mulheres iam ao banheiro várias vezes ao dia. Porém, sendo marrom e...bem, todo mundo sabe como é, desnecessária uma descrição constrangedora, não é?

Depois de todas essas voltas, o caso é que, há um tempo atrás, notei que meu intestino estava que nem o Dorival Caymmi, preguiçoso há séculos (quase descansando em paz)...

Com isso, minha barriga estava inchada, minha pele péssima e eu, na iminência de passar um fim de semana na praia, tomei uma decisão desesperada. Comprei um laxante.

Achei ótimo, seria uma espécie de lavagem intestinal caseira e a barriga sempre dá aquela diminuída considerável, ótima pra quem quer encarar o biquini sem ter encarado nada de ginástica e dieta. Fui à farmácia e pedi. O moço do balcão, muito solícito, me deu um produto natural que, como disse, era melhor pra pessoas não acostumadas ao método.

Cheguei, em casa, li a bula e, na intimidade máxima do meu banheiro, tomei o medicamento. A indicaçao era de que o "resultado" apareceria em, no máximo, 12 horas. Pensei: são oito da noite agora, oito da manhã vai ser tudo de bom.
Dormi na esperança de um belo despertar, já sentindo as fincadinhas.

No dia, seguinte, acordei e nada. Até fiquei um tempinho sentada pós-xixi, mas nada de ter qualquer vontade. Desesperançada - e pançuda - levantei, maldizendo o farmacêutico que subestimou minhas necessidades de uma dose cavalar. Decidi tomar outro comprimidinho. Aliás, outros.

Em seguida, como em qualquer dia normal, fui trabalhar. O dia agitado, telefonemas, emails, reuniões e, no meio da tarde, uma audiência em uma cidade bem próxima (30km de distância). Sai para audiência logo após o almoço e nada.
Cheguei para a audiência, a minha era a próxima, mas poderia demorar, mas meu intestino, num surto de eficiência, começou a me avisar que já estava trabalhando. As ficadinhas que eu esperava ao acordar eram fincadonas, subitamente, saídas do nada, surgidas do meu almoço super apressado e da combinação, sem trocadilhos, explosiva dos comprimidinhos...Fui perguntar onde era o banheiro mais próximo.
Aha! Como não podia deixar de ser em casos como esse, o banheiro mais próximo não era tão próximo, aliás, era em outro andar, e eu não podia sair dali, e correr o risco de perder a audiência. Comecei a suar, no princípio timidamente, depois abri um botão do casaquinho, depois tirei o casaquinho. Comecei a suar frio. Minha visão estava meio turva, ânsias de vômito e mais suadeira. Passados uns 10 eternos minutos da mais pura aflição gastro-intestinal, finalmente, chamaram a audiência que, pelo menos, foi rápida...sinceramente, nem sei direito o que assinei, foi meio no piloto automático, nem conseguia sorrir mais...
Tão logo sai da sala, acho que me teletransportei para o banheiro (masculino, como descobri ao entrar e ver a tampa levantada com inevitáveis respingos e pêlos - eca!) e sem papel (por isso que é bom bolsa de mulher, logo achei um absorvente e um pacotinho de lencinhos umedecidos, que salvaram meu dia).
Sai, aliviada, na inocência de quem realmente não está acostumada a laxantes e ainda não sabem do que eles são capazes.
Entrei no carro, liguei e fui, levíssima, dirigindo (mal, como de costume).
No meio da estrada, quando ainda faltavam uns 15 quilômetros para minha casa, outra fincada. Fingi que não era comigo, que nem tinha notado. Ela insistiu. Era comigo. De repente, uma obra na estrada. A fila que era tripla fica única. Novas fincadas. Nova suadeira. Tirei o casaquinho de vez, os sapatos, prendi os cabelos, desabotoei a calça...
E agora, não tinha para onde correr, nem para onde ir. Nenhum matinho próximo, minha saída seria rezar.
Qual o santo adequado para situações como essa? O das causas impossíveis? A desatadora dos nós eu achei que não, porque precisava era atar um nó e não desatar nada. Santo Antônio? Sem chance, meu santo vip não merece me ver nessa situação. Considerando que o "tempo fechou"pro meu lado, poderia apelar metaforicamente para São Pedro...rezando, respirando e andando um metro a cada minuto...
Não preciso narrar tudo, mas uma dúvida é eterna: por que quanto mais perto estamos do banheiro, mais a vontade fica insuportável?
Continuei, dignamente, na minha auto-preservação, segurando o que podia e o que não podia, me superando mesmo. Quando, finalmente, cheguei em casa, a sensação foi de glória. Juro que ouvi "Carruagens de fogo"ao fundo.
Minha chegada foi gloriosa, íntegra e meu banheiro me aguardava limpinho e com papel.
O laxante mostrou serviço, meu intestino nunca trabalhou tanto na vida. Os rins devem até ter ficado com inveja. Porém, sinceramente, descobri que tudo funciona como tem que ser. Inclusive quando não funciona.









terça-feira, 16 de setembro de 2008

O buquê da Sandy

Com tantos mistérios cercando o evento (segredo sobre a data, o local e a lista de presentes), pelo menos uma coisa foi revelada sobre o casamento da Sandy: divulgaram logo quem pegou o buquê. Para minha surpresa e absoluto encanto, foi a Ellen Jabour, isso mesmo, legítima bonitona encalhada, plena e absoluta.
Sorte pra todo mundo: pra ela, que deve desencalhar em breve e pras demais bonitonas encalhadas (que ainda podem sonhar com o Rodrigo Santoro).
Já o buquê da Juliana Paes - buquê nada, uma mísera florzinha - tive notícias que se esfacelou durante a luta das bonitonas encalhadas. Ninguém pegou.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Encalhadas Esperança



Desde que comecei esse blog, minha vida mudou em alguns aspectos. Tenho aprendido a lidar melhor com minha difícil condição, recebido mensagens de apoio e solidariedade, mas às vezes me sinto pra baixo, angustiada, insegura. Principalmente se estou de TPM e se é segunda-feira.


Nessa segunda-feira, eu já não estava lá essas coisas, quando a Veja, sempre ela, cruel, trouxe uma nova bomba.


Aliás, ando achando que a própria Veja - quarenta anos essa semana - tem um quê de bonitona encalhada. Ou, com todo o respeito, tem algumas bonitonas encalhadas na redação, que se interessam, cientificamente como eu, pelo assunto do encalhamento. Conferi a autoria da reportagem. São duas mulheres. Impossível não supor que estejam na nossa classe.


Voltando à segunda-feira, o dia em que tradicionalmente tudo é mais difícil na vida, abro na página 128 (pode ir lá, confira nas bancas, porque na internet ainda está bloqueado), e me deparo com a matéria "Fobia de Compromisso - Pesquisadores suecos identificam que alterações no gene responsável pela formação dos laços afetivos predispõem o homem a ser um péssimo marido".


Se não estivesse sentada e no trabalho, teria dado um grito de pavor e desmaiado. Como não era possível no contexto, levantei-me, calmamente, e fui buscar uma água com açúcar antes de prosseguir a leitura. Não é possível. Quer dizer então que agora estou submetida a uma característica genética masculina que é contra as relações estáveis? Não bastassem todos os outros problemas com os quais tenho que lidar, agora, surgindo um pretendente, devo pedir assim, de cara, um exame (que deve ser caríssimo) pra saber se devo investir ou não, se tem futuro ou não?


Imaginem comigo, os homens passarão a incrementar sua já notória desculpa: o problema não é você, sou eu.


A nova versão, após a descoberta sueca, será: o problema não é você, sou eu, que nasci com o gene AVPR1A... Ou seja: eles agora terão uma desculpa genética para dar o fora ou terminar o namoro.


Eu, por exemplo, já consigo imaginar algumas amigas capazes de roubar material dos pretendentes/pretendidos para realizar, escusamente, o exame. Já consigo imaginar até os telefonemas, desesperados, me acordando no meio da madrugada:


-Amiga (snif, snif), você não vai acreditar (snif, assoa o nariz, snif)....

-Vou sim, pode falar, sou bem crédula.

-Fiz o exame e deu positivo (buáaaaaaaaaaaaaaa).

- Positivo pra que, criatura? O que é positivo? Você tá grávida? HIV?

- Não, AVPR1A (buáaaaaaaaaaaaa)....

- É, amiga, pode chorar...


E as que estão de casamento marcado? Será que ainda dá tempo de fazer o tal exame?


Voltando à matéria, pensei logo: será que os cientistas que conduziram o estudo eram todos homens?

Páginas à frente, vem uma foto de um cara bem bacanão, e a legenda: "Com jeitão de roqueiro, o sueco Hasse Wallum, de 27 anos, foi o líder das pesquisas sobre o gene do compromisso". Olhando bem, pondero. Também, com essa cara de modelo da GAP, até eu ia querer descobrir um gene pra justificar minha galinhagem. Sinceramente, depois que vi o cientista, acreditei menos no trabalho.


Antes mesmo que eu pensasse em perguntar, a matéria, esclarecedora como ela só, já me disse: "Não, minha senhora, ainda não é possível criar uma pílula do apego ou a fórmula de um xarope antiinfidelidade". É, a Veja sabe mesmo das coisas, inclusive que só uma senhora ou senhorita, no máximo (e não um senhor) pensaria em resolver o problema que se noticia. Isso porque, ao que me parece, o gene masculino é um problema para as mulheres, especialmente para as bonitonas encalhadas.


Ainda não tem cura. Deviam começar logo as pesquisas para isso, né?


Eu já proponho a criação de um fundo para arrecadação de recursos para a vacina, ou para a descoberta do remédio que mantenha o gene inativo. Assim que descobrirem, acho que o governo deveria subsidiar o coquetel pró-casório, como faz com tantos outros medicamentos, incluindo-o, inclusive, no programa "Farmácia Popular", que garante 90% de desconto.


Outra medida interessante no futuro será o estímulo governamental à cura em massa, como a campanha do Zé Gotinha ou da rubéola.

Poderiam até promover um grande show "Encalhadas Esperança", em que os solteiros, entre 16 e 40 anos, fossem estimulados a se imunizar. Enquanto as bonitonas encalhadas se apresentassem no palco, a Fátima Bernardes (solidária à causa, porque já desencalhou) iria anunciando:

-Até agora, 27.522 homens já foram imunizados. Junte-se a nós nessa belíssima luta pela melhoria da vida de milhares de bonitonas brasileiras!

E as famosas encalhadas, talvez até uma cantora baiana comandando a massa, cantariam uma adaptação (que já providenciei) da musiquinha tradicional do "Criança Esperança": Ter um marido/na vida é tão bom ter marido/ a gente precisa de maridos no jeito/ marido de fé/ marido lindão, marido...

Voltando à vida real, é difícil, sabe? Tem dias em que a gente tem vontade de jogar tudo pro alto, largar mão, se jogar no contraponto da bonitona encalhada, que deve ser alguma coisa como a bonitona liberada, a bonitona desencanada, sei lá.


Não há justiça genética. Mulheres heterossexuais, além de viverem mais, ainda tem que lidar com uma infinidade de variáveis: homossexualismo em alta (nada contra, apenas um suspiro pela diminuição da oferta de material masculino), síndrome de Peter Pan (dos que, após os 30 anos continuam querendo acreditar que são muito novos) e, agora, o malfadado gene AVPR1A.


Já as mulheres homossexuais (nada contra também, respeito as opções íntimas de cada uma) devem estar se dando bem: além de viverem acompanhadas por mais tempo, ainda não tem que lidar com nenhum tipo de escassez ou debilidade genética avessa ao amor e ao compromisso.


Será que Deus, diante da superpopulação da Terra, decidiu fazer com que o encalhamento se propague?


É uma conspiração a nosso desfavor. Ainda mais assim, bem no começo da semana.


Por isso, diante desse mar de injustiças que nos cerca, conclamo: bonitonas encalhadas do mundo, uni-vos!


E o pior ainda estava por vir...


Aguardem o próximo post.



quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Posso falar de outra coisa?


A pergunta que não quer calar

Ok, ok.
Todo mundo já deve ter lido mil coisas sobre o casamento da Juliana Paes.
Eu acompanhei, felizinha, várias notícias da internet, constatando que o encalhamento não tem preconceito: famosas, lindas, ricas e bem sucedidas, também encalham (e desencalham, como a Juliana)!!!
Por isso, não resisti, e acabei dando uma passadinha no blog só pra perguntar: quem será que pegou o buquê?

domingo, 7 de setembro de 2008

Bolo em fuga

Depois do dia da igreja, percebi a oportunidade de me tornar uma “personal friend of Bride”. Isso significaria colocar-me à disposição de noivas neuróticas (como as daquele outro programa de TV a cabo), para resolver as coisas chatas do casamento, que não podem ser resolvidas por quem não tenha muita intimidade com a dona do grande dia. É que não dá pra mandar a dona do cerimonial decidir sua lingerie, por exemplo.

Essa opção por me tornar personal friend of Bride, ou personal bonitona encalhada, ou qualquer espécie de personal, porque, atualmente, nada mais chique que ser/ter um personal qualquer coisa. Quanto mais exclusivo esse “qualquer coisa” (porque um reles personal trainer é como se fosse a TV aberta dos personal, aquilo que todo mundo tem, o básico, muito pouco pela multiplicidade de canais exclusivos da TV a cabo).

O título que irei adotar ainda não decidi, mas a opção de ser personal seja lá o que for decorre de duas características muito marcantes em mim:
- característica marcante 1 - não sei dizer não;
- característica marcante 2 - tenho o dom, único e certeiro, de atrair programas de índio, tendo sido merecedora, diversas vezes, do troféu cacique de ouro e da menção especial honrosa pajé.

Percebo que a característica marcante 1 acaba por, diversas vezes, resultar na característica marcante 2, mas tenho que reconhecer que, muitas das vezes, eu mesma, por minhas próprias idéias, invento programas de índio.

Enfim, considerando as duas características, conclui que seria uma ótima pessoa para entrar nas frias que a vida pré-nupcial apresenta. Pensei também que, como trabalho voluntário está na moda, poderia até enquadrar essa nova atividade na categoria “ações de caridade”, o que dá uma melhorada em qualquer currículo. E quem irá dizer que não existe uma alta dose de altruísmo em ir escolher tecido de vestido das daminhas num sábado de manhã?

Então, assim que descobri essa nova atividade não remunerada, sai anunciando, à procura de novas cobaias. Cobaias sim, porque, confesso, além de ajudar os outros, eu fico observando as pessoas, as reações, os sonhos. Assim, tenho a oportunidade de aprender muito sobre casamentos, e irme aprimorando sobre o tema, sem ter que me casar várias vezes, como o Roberto Justus e o Otávio Mesquita.

Minha primeira tarefa foi organizar um aniversário de amiga que ia se casar, e que estava completamente sem tempo pra isso. Na verdade, aniversários não eram exatamente o que eu tinha em mente quando aderi com convicção ao ramo de personal alguma coisa, tão em voga.

Entretanto, minha amiga pediu com tanta ênfase que, como não sei dizer não, disse sim.


Também, coitada, era tanta coisa que ela tinha que ver, olhar, decidir, que me pediu para fazer a reserva do aniversário dela em algum lugar, grande, que coubesse os convidados e, como não poderia deixar de ser, com cartela de consumo individual, porque, em épocas de pagar casamento, não se pode ficar desviando o objetivo para outras festas.

Aos dezoito anos, comecei a aderir ao que Walcyr Carrasco, hoje autor de novelas muito famosas daquela emissora do plim-plim, naquele tempo só mais um dos cronistas que eu amava, num texto que até hoje amo e recomendo, denominou "O Golpe do Aniversário".
Em breves linhas, o Golpe do Aniversário consiste em chamar as pessoas para um lugar legal, bacana, descolado, no esquema “cada um paga o seu” (recomenda-se, nessas ocasiões, um lugar que tenha cartelas individuais de consumo para evitar o que eu denominei de "Segundo Efeito Reverso" do Golpe do Aniversário, que consiste em ter que pagar o que cada convidado deixa a menos, o que se agrava dependendo do tanto que cada um bebe e se agrava ainda mais dependendo do que cada um “esquece” que consumiu).
Esclareço, aqui, que o primeiro efeito reverso do Golpe do Aniversário é não receber presentes, porque descobri, após anos e anos de observação, que a maior parte das pessoas considera o presente como sendo uma contraprestação pela boca livre proporcionada pelo aniversariante. Sendo assim, as pessoas não se sentem na obrigação de dar presentes quando vão pagar pelo que ingerirem. Muito ruim para o aniversariante...
Voltando ao caso da amiga, estávamos lá, no lugar bacana onde fiz a reserva, cada um de olho em sua respectiva cartelinha (é impressionante como quando alguém pede uma porção de petiscos, as cartelas somem, parece que ninguém quer correr o risco de pagar sozinho). E quando a cerveja é de garrafa? Melhor nem comentar.
O fato é que, para homenagear todos os que tiveram a idéia de comemorar o aniversário no lugar, os donos ofereciam uma surpresinha, um agrado. Quando ninguém estava prestando muita atenção, de repente, a música ambiente parava, e lá vinham os garçons em fila, cantando o parabéns, super animados.
O problema é que minha amiga não era a única aniversariante do dia, e não havia garçons suficientes para várias filas. Então, a música parou a primeira vez, começou a tocar parabéns, nós, os convidados aplaudindo, olhando pra ela, aquela coisa toda, e lá se foi a fila de garçons cantando para outra mesa.
Cerca de 15 minutos depois, a música pára de novo, outra fila de garçons, e nós batendo palma, de novo, e lá se vão eles para outra mesa! Começou a ficar chato.
Terceira vez, que antipatia essa fila chata cantando, a gente tinha que levantar, né? Alguns se entreolharam: e se, de novo, não for o parabéns dela? Pelo sim pelo não, levantamos, e a fila passou direto.

Eu comecei a sentir um misto de culpa e constrangimento, afinal, eu escolhi o lugar, fiz a reserva e a noiva é sempre um vulcão prestes a entrar em erupção.
Mais quinze minutos, outra parada, novamente parabéns tocando, nós, os convidados da minha amiga, de novo naquela angústia constrangedora, nos entreolhando, será que deveríamos bater palmas? Ela, que de longe avistou o garçom que puxava a fila, avisou:

- Gente é o meu bolo! Podem bater palmas!
Recuperamos o fôlego e batemos palmas, cantando entusiasmados quando, de repente, a fila passa direto e o garçom que levava o bolo, ainda dá um tchauzinho para minha amiga, que havia se afastado da mesa para dar passagem...
Servido o bolo na mesa errada, minha amiga avisa ao garçom, que já se retirava.
Pensei em fazer uma fila com os convidados da minha amiga, e ir lá, cantando, roubar/retomar o que era nosso por direito.
A outra aniversariante, diga-se, estava completamente encantada por ter ganho um bolo enorme, de morango com chocolate.

Minha amiga com os olhos marejados, vai à Gerência.
Agora vocês não vão acreditar: os garçons entraram novamente, em fila, cantando, retiraram o bolo da mesa errada, levaram para a mesa certa (ri, no meu íntimo, da decepção dos convidados da aniversariante que não levou bolo). Coitada da minha amiga. Foi realmente constrangedor.
Todo mundo ficou um pouco constrangido de comer o bolo, no final, até chamamos o pessoal da mesa "errada" para comer também. Assim, entre mortos e feridos, todos se salvaram.

Depois desse dia, decidi restringir minhas ações de assistência social lato sensu a eventos relacionados ao casamento propriamente dito. Afinal, uma bonitona encalhada de requinte tem que ser especialista.

sábado, 6 de setembro de 2008

A bonitona encalhada e todas as bonitonas encalhadas dentro dela



De vez em quando, é bom a gente dar uma paradinha e, de um jeito mais ou menos consciente, analisar o que temos feito da vida (e o que a vida tem feito da gente). Então, vou aproveitar esse domingo para dar uma paradinha nos casos da bonitona encalhada e explicar como funciona.


Em primeiro lugar, você tem que estar meio à toa, assim, de bobeira. É um exercício bom para logo antes de dormir, para durante o banho, ou, em qualquer outra hora vaga.


Comece a pensar na pessoa que você é, tentar se olhar e olhar sua vida como se estivesse de fora. Eu tento fazer isso com alguma freqüência, e sempre me deparo com o quanto podemos nos olhar com outros olhos, como se fossem olhos de outros, e descobrir que acabamos sendo pessoas diferentes das que planejávamos, sonhávamos, acreditávamos.
Não sei se só eu sou assim, mas muitas vezes lembro de mim, em alguma atitude, em algum gesto, alguma palavra dita a alguém, e, simplesmente, não me reconheço. E isso, felizmente, acontece para o bem e para o mal, antes que você comece a pensar que me tornei alguma espécie de monstro maquiavélico frio e calculista.


Acontece, por exemplo, quando eu faço um trabalho bem feito e, revendo-o, consigo superar minha vergonha e autocrítica e achar que ficou bom. É o que acontece quando me pego fazendo coisas que minha mãe sempre fez, do jeito que ela sempre fez, e que eu sempre critiquei. É o que acontece quando ficamos impacientes no trânsito, grosseiras com colegas, e amável com pessoas que nunca vimos antes. Acho bom poder me surpreender comigo, porque os outros, de uma forma ou de outra, tem a capacidade de nos surpreender sempre.
Essa volta eu dei pra dizer que, no fundo, ser mulher é ser muitas.
E sempre que penso nas várias mulheres que cada mulher é, lembro com carinho de uma bonequinha russa, que ganhei de Simone, uma amiga muito querida.
Não sei se todos conhecem a Matryoshka, que é uma bonequinha de madeira, muito linda e delicada, que “abriga” outra, que abriga outra e assim sucessivamente, dentro dela várias outras, idênticas, mas menores. Descobri na internet que a tradução de Matryoshka é "mãezinha".


Adorei e adoro minha bonequinha russa, linda, cheia de metáforas com as quais vou poder me divertir por tanto tempo... Afinal, o que são, ou quem são as outras bonequinhas que aquela boneca guarda?
Pensei primeiro que fossem várias versões dela mesma, muito parecidas por fora, cada uma mais escondidinha, como os vários eus que escondemos dentro de nós, os eus que vamos revelando aos poucos e para poucos, pouquíssimos que conseguem chegar à nossa última instância, à nossa primeira essência: pequenininha, mas indivísivel, guardada pelas outras todas em que a gente se transforma: profissional, amiga, namorada, menina, mulher, aluna, aprendiz, companheira, irmã, mãe, tia...
As nossas cascas são muitas, vão se abrindo, revelando outras etapas, outras matérias, outros jeitos de ser, de agir, de falar, de sonhar...

Uma bonequinha que é tantas, mas que, olhando por fora, é uma só.
Pensei também que a bonequinha podia ser cheia daquelas que vieram antes dela...na bisavó, na avó, na mãe, em todas aquelas mulheres que foram de certa forma, contribuindo e influenciando para que aquela estivesse ali, maior que elas, melhor que elas, mais detalhada, aprimorada.

É isso que somos, não é? Uma porção de genes que progredindo, evoluindo, melhorando, cuidando (e haja tratamentos estéticos), mas que provam que a gente descendeu daquele ancestral comum e que, quanto mais próximo, mais marcas deixa na gente, às vezes um tom de pele, às vezes um olhar, um levantar de sobrancelhas, um jeito de dar gargalhada ou o tom de voz...às vezes uma canela fina, ou uma perna grossa, às vezes uma simpatia imensa, às vezes uma braveza incorrigível.

Enfim, como eu já disse, uma bonequinha que é tantas, mas que, olhando por fora, é uma só...
Pensei também que a bonequinha pode ser recheada pelas escolhidas dela.

Suas amigas que, com o tempo, com a convivência, com a amizade, acabam sendo incorporadas, trazidas para dentro dela...e por serem parte da outra, que as abriga, tem seu jeito, sua cara, fazem parte do seu coração, suas eleitas, suas pessoas, seus pedacinhos que faltavam, porque a vida é muito vazia se a gente não tem ninguém pra por dentro dela.

A vida pode ser oca se a gente não acha por ai, na escola, no prédio, na faculdade, na academia, na casa da vó, no colo da mãe, ou, ainda não sei, dentro da nossa barriga, essas outras que vão trazer tantas e tantas coisas...E ai, a gente chega à mesma conclusão sempre: uma bonequinha que é tantas, mas que, olhando por fora, é uma só...
Ainda não me decidi sobre qual é a opção certa.

Talvez, olhando para minha bonequinha, ainda possam surgir novas hipóteses. Mas uma coisa é certa: elas funcionam juntas - não dá pra sumir com uma, as outras ficam sem lugar, fica um vazio sem preencher, fica um espaço esperando para ser ocupado. Não dá para substituir, cada uma tem seu tamanho e sua importância.
E, por eu ser assim, mulher, sei que também sou, de certa forma, uma bonequinha com muitas outras dentro, e tento ser, cada vez mais, uma bonequinha com mais coisas dentro: uma mulher cheia de descobertas, de novidades, de ensinamentos, de garra, de vida, de alegrias, de receptividade, de abertura. Uma mulher em que sempre haja espaço pra mais gente, amor, alegria, aprendizado uma mulher nova a cada dia, e livre e independente o suficiente para me assumir dependente de carinho, afeto, apoio e de todas as formas de amor.

A teoria dos pratinhos

Uma verdade a ser dita: ninguém nasce bonitona encalhada. E também ninguém sabe, antes dos 24/25 anos, que vai se tornar (ou que já se tornou) uma bonitona encalhada.

O encalhamento chega devagar, como quem não quer nada, e vai se instalando aos poucos, mas sempre é reversível (sim, existe vida antes, durante e após o encalhamento). Ele não tem preconceito de raça, cor, religião, nem classe social. Qualquer mulher está sujeita a isso. Simples assim.

Porém, como tudo na vida tem uma razão de ser, essa brevíssima introdução foi só pra dizer que, se a bonitona só encalha após os 25 anos, é porque o encalhamento pressupõe uma dose de maturidade.

Toda bonitona encalhada já se apaixonou (pelo menos duas vezes), já chorou por alguém (pelo menos cinquenta e duas vezes), já imaginou com detalhes como seria seu casamento (pelo menos mil e cinquenta e duas vezes). A bonitona encalhada, em geral, não tem o arroubo e a histeria adolescente, nem cogita o suícidio pelo simples fato de ser/estar encalhada. Ela trabalha, tem todas as atribuições cotidianas de uma mulher adulta e, em geral, nada que a diferencie muito das não encalhadas.

Além da dose de maturidade, são necessárias algumas doses de bebida alcóolica destilada às vezes (principalmente em casamentos alheios), e outras doses de filosofia, porque toda bonitona encalhada que se preze tem conflitos existenciais suficientes para muitos anos de análise.

Questões de altíssima complexidade assaltam, a qualquer hora do dia (e da noite) a mente das bonitonas: Por que? Por que, meu Deus, o encalhamento bateu logo à minha porta? Onde foi que eu errei? Por que ele disse que ia me ligar e não me ligou? Será que sou tão feia assim? Será que estou gorda? Será que tenho mau hálito?

Enfim, nem uma junta psicológica que reunisse Freud, Jung e Arnaldo Jabor, conseguiria responder a tantas perguntas. Aliás, Freud deu umas pistas boas, mas a bonitona encalhada que vos fala fica bastante reflexiva às vezes, e com tempo de sobra, elaborou algumas teorias, que tornam sua vida mais fácil (e sua existência mais leve).

Foi assim que surgiu a teoria dos pratinhos.



A teoria dos pratinhos nasceu da experiência social coletiva de muitas mulheres (leia-se: eu e minhas amigas) e tem como objetivo explicar o comportamento masculino dos homens solteiros na balada (ou na farra).
Ao contrário das mulheres, cuja complexidade é notória, homens são seres simples, primitivos até, e seu comportamento pode ser descrito em poucas linhas, como farei a seguir.

Todo homem solteiro é um equilibrista de pratinhos em potencial.

Os pratinhos que os homens equilibram, infelizmente, somos nós (olha como a frase da Clarice é boa sempre!).

A dinâmica do equilíbrio de pratinhos é delicada, mas fácil de entender. São vários deles, cada um sobre uma vara (nada de metáforas sexuais, por favor), e o equilibrista deve mantê-los girando para que não caiam no chão e quebrem. Não se pode rodar com muita força, para que o prato não saia voando da vara, nem esquecê-lo, para que não caia.

Para o homem solteiro, cada mulher que ele pega torna-se, automaticamente, um pratinho. Muitos pratinhos significam muitas mulheres, e ele tem que manter todas girando, principalmente para se vangloriar com os amigos, enquanto não quiser escolher um pratinho principal.

Assim, após captar o pratinho (sair para a balada), o sujeito acha o ponto de equilíbrio, girando com força média (ligações telefônicas, mensagens e saidinhas bonitinhas - cinema, pizzaria, barzinhos - geralmente às segundas, terças, quartas e domingos).

A pratinho, ao ser chamada para sair a dois, geralmente se impressiona, fica feliz, e se mantém girando, em equilíbrio por pelo menos uns três quatro dias. É fácil para eles.

Se o sujeito gira demais o pratinho (vira um grude), o pratinho voa e nunca mais é visto (ninguém aguenta homem grudento).

Se o sujeito gira de menos (some por duas semanas consecutivas, sem explicações), o pratinho se quebra (e geralmente o coração da "pratinho" também).

Os dias preferenciais de captação de pratinho são quintas, sextas e sábados. Quando as festas maiores acontecem (eventos do tipo axé, sertanejo, raves, boates, enfim, esses de multidões).

O objetivo do pratinho é ser tirado da vara onde gira e ser transformado em prato principal (leia-se, namorada).

Não se pode falar que os giradores estejam de má-fé. Eles estão testando as possibilidades, fazendo a seleção que lhes convém, e a lei da oferta e da procura nunca foi justa.

Se, depois de escolher um prato principal, o namoro acaba, o prato vira aqueles enfeites de parede de antigamente, que nem podem ser considerados enfeite, são mais uma coisa afetiva, de memória mesmo. E o equilibrista retoma seu ofício.


É preciso acrescentar que, a par da simplicidade dos homens (quase todos iguais), os pratinhos são de vários tipos: de porcelana (só de encostar mais forte já quebra, de vidro (se cair, quebra), duralex (dependendo do jeito que cair, nem quebra) e os pratinhos de metal (também conhecidos como mulher de malandro, cai mil vezes, sabe a teoria, sabe que é só um pratinho, mas volta a rodar toda vez que o moço liga)...

Pronto, bem simples a teoria (homens não são seres, em geral, muito sofisticados). Mas comecem a aplicá-la e me contem se não é verdade...

A seguir, para encerrar este post, uma imagem significativa, de um futuro rodador de pratinhos.


sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Notícia urgente do jornal da Globo

Isso aqui não é um post oficial, mas não resisti de comentar no blog.

Cheguei em casa ontem por volta da meia-noite, e me deparei com a chamada do jornal da Globo "Casal processa padre por casamento de 12 minutos".
Achei inusitado, claro, mas pensei que, no final das contas, pelo menos teve casamento, né?

Em resumo, o caso foi o seguinte: a secretaria da igreja se confundiu, e marcou o casamento para as oito e meia da noite.
O padre achou que era as oito.
A noiva chegou oito e quarenta.
O padre já estava bravíssimo, fez um casamento "fast-food", nem benzeu as alianças, nem os declarou marido e mulher, e foi fazendo tudo no vapt-vupt.
A noiva ficou super chateada, eu até concordo com ela. São anos e anos de sonhos indo por água abaixo em poucos minutos. Mas, pelo menos, desencalhou, né?
Outro detalhe que me chamou a atenção, foi que a noiva desmarcou a festa, de tão triste que ficou. Isso me pareceu vingança, do tipo "ah, já que o meu casamento não foi o dos sonhos, ninguém mais casa!"
Agora, coloquem-se no lugar daquelas que, por sua vez, haviam se preparado para a disputa pelo buquê. Será que elas podem processar a noiva?
O post de verdade vem mais tarde.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

A luta pelo buquê - o post prometido

Não há comprovação científica ou estatística sobre a veracidade da profecia do buquê.


Ouvi dizer que, atualmente, a profecia se inverteu, assim como acontece com a temperatura da terra na época do El Ninõ, e quem pega o dito cujo está fadada ao encalhamento eterno. Todavia, a fonte da informação, dessa vez, não é segura como a Veja. Aliás, quem veio com esse papo foi um notório solteiro radical, desses que, inexplicavelmente, enrolam a namorada mais que perfeita há anos, o que reduz drasticamente o grau de confiabilidade das palavras. Se bem que, pela ótica masculina, ver sua namorada com o buquê na mão pode mesmo significar azar.


É fato que, pelo sim pelo não, toda solteira que se preze tem que ficar lá, no bolinho das encalhadas, na hora que a noiva decidir jogar o objeto de desejo. Isso porque, cá entre nós, eu acho que o buquê é tipo o anel do senhor dos anéis, merecendo até a denominação "my precious". A felizarda, tão logo se apodera do amontoado de florzinhas, se torna meio egoísta, meio estranha, tanto assim que não há quem nunca tenha presenciado um buquê pego por duas pretendentes ao mesmo tempo, e a instalação do clássico impasse "quem vai largar primeiro".


Depois de comparecer a alguns casamentos, é natural que uma bonitona encalhada que se preze comece, a partir de um método analítico/observatório, a desenvolver técnicas para pegar o buquê. Eu desenvolvi algumas. Como já contei, elas ainda não funcionaram, portanto, é óbvio que precisam ser aperfeiçoadas. De qualquer jeito, vou compartilhá-las, para que outra bonitona encalhada possa a partir delas (e não do nada, como eu), conseguir o objeto de desejo de 10 entre 10 solteiras presentes em casamento.


Em breve, diante da eterna busca das academias por modalidades novas e originais, já prevejo a possibilidade de um curso "pega buquês" (iniciantes, básico e avançado, claro). Ao som de "você é doida demais" ou "ah, que isso elas estão descontroladas", qualquer uma poderá praticar, até em casa...Se pole dance já invadiu a malhação, porque um esporte que combina saltos, alongamento, respiração e concentração não podera seguir o mesmo caminho?





Feitas as considerações preliminares, seguem os dez mandamentos para pegar o buquê (ou, pelo menos, para não comprometer sua dignidade durante a tentativa). São os seguintes:


Mandamento 1 - Não vestirás tomara-que-caia
A regra número um é básica. Como qualquer atividade, pegar o buquê exige traje adequado. Vestidos tomara-que-caia, por exemplo, são expressamente desaconselhados, pelo risco - como o próprio nome do vestido diz - de cairem, deixando você com tudo a mostra. Outro item de segurança é a sola do sapato, que não pode ser completamente lisa, sem um anti-derrapante adequado, que te impeça de se esborrachar no chão se este estiver molhado. Um salto menor que 10 também ajuda na estabilidade de um evetual salto, muito embora comprometa a elegância. Fica a seu critério.

Considerando que não têm sido muito usados os vestidos longos, vale fazer o "teste da polpinha" antes de sair de casa. É simples e seguro: já com a roupa da festa, levante totalmente os dois braços e peça para alguém verificar se a "polpinha" do seu bumbum está a mostra. Você sabe, aquela dobrinha que seu bumbum faz quando encontra sua coxa. Se estiver, a solução é trocar de vestido, ou ir testando qual é a altura segura para erguer os braços na festa.

O teste da polpinha, criado por mim, é muito útil também para não ficar dançando de braços muito levantados, se sua vestimenta não for adequada.

Mandamento 2 - Observarás o local do arremesso
É claro que a noiva vai lançar o buquê de um lugar mais ou menos óbvio. Se tiver banda, vai ser do palco, se tiver dj, vai ser do lado do dj, no palquinho dele. Se não houver nenhuma das opções, verifique qualquer altinho no relevo geral da festa, porque é de lá que o buquê deverá ser arremessado. É bom checar se o chão está seco, nada pior que um derrapamento nas fotos E no vídeo do casamento. Observe também lustres ou globos de boate, que podem interromper subitamente o vôo do tufo floral. Uma boa dica é ficar logo abaixo de algum "quebra-vôo", as chances de o buquê bater e cair num ângulo de 90 graus são realmente altas.

Mandamento 3 - Não esperarás ser nominalmente chamada
Já que esse blog é só de pessoas queridas, vai uma dica de ouro. Por mais encalhada que você esteja, não se assuma como encalhada referência, tipo, "a" encalhada das encalhadas. se você estiver próxima desse marco negativo, procure ser a primeira a chegar ao local no momento do arremesso do buquê. Com isso, a noiva vai te ver logo e dar aquela piscadela simpática, em vez de pegar o microfone e começar a gritar seu nome como uma louca, até que você saia de debaixo do forro da mesa de doces e apareça.

Mandamento 4 - Ficarás na primeira fila
Sinceramente, esse negócio de buquê costuma ter uma alta dose de marmelada. Se fizessem uma CPI do buquê, ia ter muita encalhada devolvendo buquê aos cofres públicos. Porém, se você é brasileira e quer fazer valer o seu destino, poste-se na primeira fila, próxima às melhores amigas da noiva (se você já não for uma delas). A noiva fatalmente irá tentar mirar em você, e não custa estar na hora certa, no lugar certo.

Cuidado apenas com as caras e bocas, porque, quem está na primeira fila SEMPRE sai nas fotos.

Mandamento 5 - Alongarás seus braços
Antes de tentar pegar o buquê, é altamente recomendado um breve (e discreto, por favor) alongamento. Braços, pernas e pescoço devem ser priorizados. Sugiro a cabine do banheiro, para garantir sua total prioridade na concentração.

Mandamento 6 - Não beberás muito
Muito embora a conquista de um buquê seja um momento ímpar na vida de qualquer mulher, deixe pra bebemorar depois de conseguir alcançar o objetivo, e não antes. Bebida e direção, como é notório, não combinam e vc pode ter seus reflexos prejudicados, além de ver vários buquês onde só existe um.Aliás, fui a um casamento outro dia em que, ao ser lançado, o buquê virou três. Como eu tinha bebido um pouco, fiquei confusa, não sabia qual deles seguir e, adivinhem, fiquei sem nenhum. Por isso, aproveite que as adversárias estarão embriagadas e dê o melhor de si. Se mesmo assim não conseguir, você poderá beber muito para afogar as mágoas.

Mandamento 7 - Não puxarás o cabelo
Independentemente de sua vontade, de seus sonhos e planos, não agrida as adversárias. Valem agressões não visíveis: pisar no pé da outra com o salto agulha vale (é cruel, mas todo mundo acreditará que foi sem querer), uma cotoveladinha acidental no olho também passa, mas ninguém, ninguém, puxa o cabelo alheio sem querer. Além disso, imagine se a sua vítima estiver de aplique? Você vai ficar com um tufo de cabelo alheio e sem nenhuma florzinha nas mãos? Portanto, perca o buquê, se for o caso, mas não perca a classe.

Mandamento 8 - Não desistirás facilmente do que é seu por direito
Se você chegou até esse momento, seguiu o passo-a-passo e viu que o destino sorriu para você, vindo o mais-que-desejado diretamente em sua direção, e, de repente, viu-se atacada por mil braços saídos sabe-se lá de onde, como se houvessem polvos, e não mulheres, à sua volta, seja firme. Não solte o buquê que veio diretamente para os seus braços. Se surgir aquela situação embaraçosa, de você e outra pegarem o buquê, raciocine rapidamente quem precisa mais. Se você achar que a outra precisa dele que você, solte-o. Só de ter vindo na sua direção, acredito que sue destino já estará selado.

Mandamento 9 - Não chorarás
Aconteça o que acontecer, se depois de todo o esforço, o buquê fizer uma trajetória completamente inesperada e for capturado por uma criança de 10 anos, não se desespere. Lembre-se: não há comprovação científica de que o buquê funciona e haverá inúmeros outros casamentos (estamos diante de uma verdadeira epidemia!) em que você terá uma nova chance. É muito feio chorar por perder o buquê, e mais feio ainda é o que vai acontecer com a sua maquiagem. Com os olhos pretos e borrados, sua chance de desncalhar só diminui.

Mandamento 10 - Repartirás o buquê com as amigas
Agora, se a noite for sua, e a luz da sua estrela brilhara para o buquê, seja legal com suas queridas amigas que não pegaram e dê uma florzinha (pequena, singela, discreta, e que não comprometa o arranjo como um todo) a cada uma de suas amigas encalhadas, para que elas não percam as esperanças nunca.


Era isso por hoje. Se alguém mais tiver técnicas avançadas, pode me enviar. Tenho um casamento dia 26 agora e estou na preparação.

Pra bom entendedor, meia palavra basta



terça-feira, 2 de setembro de 2008

A luta pelo buquê - cenas do próximo post

Adivinhem: quem é a bonitona encalhada na foto abaixo?





Um rosto (e um resto) de esperança... reparem o olhar reflexivo, tentando descobrir a direção a seguir...





A bonitona tirando uma casquinha do buquê alheio. Destaque para o sorriso amarelo...

A bonitona encalhada em ação

Parece contraditório, mas eu, assim, enquanto bonitona encalhada, imersa na epidemia matrimonial que me cerca, acabei me tornando uma espécie de gurua casamenteira das minhas amigas. Mesmo sem nenhuma expectativa de me casar em breve, mesmo sem vislumbrar qualquer possibilidade de me tornar uma noiva, acabei ganhando a confiança de minhas amigas, e de amigas das minhas amigas, e de amigas das amigas das amigas, enfim, você já deve ter entendido. Passei a dar palpites gratuitos nos casamentos dos outros.


É engraçado, porque, sendo eu assumidamente encalhada, passei a inspirar essa confiança inusitada nas semi-desencalhadas (semi sim, porque, se casamento, que é de papel passado desanda, noivado também pode desandar) que me rodeavam. Gastei muitas horas imaginando a razão dessa consultoria espontânea e gratuita, e quase conclui que o fato se deveu à minha pouca expressividade em termos de inveja: eu, enquanto encalhada, não copiaria nada das minhas noivas-amigas, não roubaria as idéias delas para usar no meu “evento” e, por isso, acabei sendo a escolhida para acompanhar nas andanças que precedem um casório.

Degustei docinhos, salgadinhos, japonês, bem casados, pizzas, vinhos brancos, tintos, rosé, frisantes, espumantes, cachaças. Vi books de fotógrafas diversas, assisti a vários filmes de casamentos cujos nubentes eu nunca vira, só palpitando sobre a sensibilidade artística do profissional de filmagem, acompanhei em costureiras, lojas de lembrancinhas, de forminhas (forminhas de casamento merecem um capítulo a parte) e em espaços de eventos.

Resumindo, uma amiga encalhada é o equivalente a um amigo gay de uma mulher. Assim como gay deve ser ótimo pra dar palpite sobre homem, sem nenhum risco, porque não é concorrente, a encalhada entende tudo de casamento, porque ela só pensa no assunto, mas também não é, por assim dizer, concorrente. Como quem só pensa no assunto, acabei atraindo as coisas, mas os casamentos que atraí, por enquanto, foram só os dos outros. Para mim, nada em vista.

Outra idéia que me vem agora é a de que a amiga encalhada é meio parecida com a endocrinologista gorda, sabe? Ela entende tecnicamente do assunto, só não aplica seus conhecimentos na vida dela. Ela cura os gordinhos, mexendo nas glândulas deles, nos hormônios, na dieta, mas não se resolve. Pode ser até que ela seja muito mais resolvida que os outros, e por isso, se mantém. É uma hipótese.

A amiga encalhada é como o técnico de futebol: manja do assunto, mas não joga. Se bem que, atualmente, o que tem de técnico de futebol que não manja do assunto e também de técnicos que jogam... Meu exemplo futebolístico foi péssimo, justamente porque não entendo nada do assunto. Atualmente entendo de casamentos, chás de panela, chá bar, despedidas de solteiro, e um pouco da vida e de relacionamentos em geral.

A vida é mais interessante e engraçada que qualquer ficção, pelo menos na minha opinião. Sempre achei que meus sonhos são muito maiores que minha realidade. Sempre senti que minha cabeça funciona mais rápido que minhas mãos e que minha boca. Sempre processando muitas informações ao mesmo tempo, tendo idéias, descartando-as, tendo sonhos, descartando-os, e limitando minha vida ao mais trivial cotidiano, enfim, tendo uma vida, descartando-a. O problema: sempre tentei ser normal. E ser normal é muito difícil, porque de perto, ninguém é exatamente normal. Qual é a sua definição de normalidade? Quem é a pessoa normal que você conhece?

Queria aproveitar esse momento de fuga da realidade, para dizer que hoje, acho que a vida é feita de sonhos e que o resto é o que temos que fazer para realizá-los. Quero contar que uma boa conversa muda os rumos de algumas coisas e que não há caminho sem volta, não há estrada sem retorno, não há qualquer coisa definitiva. Quero contar que a medida da alma é a métrica da poesia. Que nem tudo que se pensa pode ser dito em palavras. Que não há palavras para o que se sente. Mais que isso: quero contar nenhuma imaginação dá conta das coisas que a vida inventa.
É isso. A vida é um turbilhão criativo e sempre que me acontece alguma coisa muito inusitada, o que acontece com certa freqüência, eu penso assim: olha a imaginação da vida superando as previsões...

Meu primeiro caso como a bonitona encalhada em ação aconteceu justamente no dia em que precisava descobrir como marcar o casamento de alguém na igreja.

Enquanto dirigia (muito mal, porque eu dirijo muito mal mesmo), tentava ligar para a amiga-noiva (vai imaginando, alguém que já dirige mal, tentando discar o celular).
Celular fora de área ou desligado. Não tinha vaga, nem sinal da amiga, nem da operadora de telefonia. Eu pensando: abro uma brecha na minha agenda, falo que tenho médico, saio mais cedo do serviço por causa da desnaturada e ela me deixa assim na mão. Mais uma volta no quarteirão e eu desisto, pensei. Dei mais uma volta. Mais uma. Mais uma. Enfim, uma vaga! Alívio.

Meio alívio, na verdade. Sou mineira e minha cidade é, assim, montanhosa, como, aliás, é o estado inteiro. Recomeça o drama...Vaga numa super descida. Carro 1.0, sem direção hidráulica e, obviamente, sem câmbio automático ou qualquer outra coisa que tornasse mais fácil dirigir.
Vamos lá, comecei a pensar comigo mesma, concentra na respiração, respiração, inspira, expira, inspira, expira, abra o olho, olhe a vaga, inspira, expira, suspira, praticamente uma ioga pré-manobra. Força nas pernas, controla a embreagem, puxa o freio de mão... Vamos lá, concentração, vaga pequena, carro idem. Vaga menor que o carro?
Ponho o carro do lado da vaga, não, vaga maior que o carro, com folga de quase um metro, aliás. Noções de espaço e de direção nunca foram meu forte mesmo.

Dou ré. Rezo baixinho. Concentro.
Rua de pa-ra-le-le-pí-pe-dos, com graminha entre os pa-ra-le-le-pí-pe-dos... Vamos lá, Laura, força e concentração. Puxa esse freio de mão, isso... Calma. Respira, respira de novo. Vira o volante. Vira tudo. Isso, isso. O pior já passou. Calma. Puxa o freio de mão. Desliga o carro.
Desci do carro e fui andando do melhor jeito possível, de salto no piso de paralelepípedos (ô palavrinha difícil!)...

Na minha opinião, devia ser proibido esse tipo de piso num lugar tão público como uma rua, quase na porta de uma igreja. Tanta lei inútil hoje em dia, mais uma, menos uma, não ia atrapalhar ninguém.



Eu, como usuária de salto alto, acho. Afinal, os idosos estão por aí, correndo o risco de tropeçar e, osteoporose em alta, quebrar tudo o que não pode mais ser remendado. Enfim... além disso, as noivas. Imagina a noiva chegando, maravilhosa, de salto agulha, entalada entre os paralelepípedos...

Ai, visualizei, ao longe um pequeno amontoado de mulheres. Aliás, não era um amontoado, era uma fila mesmo, indiana. Fui andando, meio sem graça, meio tensa, coração aos pulos... meu Deus, pensei, são 9 da manhã e já tem essa fila, que loucura é essa? Nem estou nesse desespero todo, aliás, meu desespero é outro e... todo mundo aqui já deve ter noivo. O mais importante é ter o noivo.

Vale uma observação: isso era 2 de janeiro. Dois de janeiro e já tinha fila na porta da igreja pra conseguir data...

Pois então, a amiga-noiva me encaminhou pra missão impossível que era conseguir uma data no sábado. Ela tinha decidido data com o noivo no reveillon e de lá me ligou pra pedir o favor de ir à igreja reservar a data. Data decidida na virada do ano, no dia seguinte o noivo já amanheceu péssimo.

Ressaca, pensaram.

Ele começou a passar a mal ainda na festa, passou mal a noite toda, e de manhã descobriram que a ressaca era, na verdade, uma crise de apendicite que o levou ao hospital. Tão sincronizado, cada um começou o ano extirpando algo que está incomodando, ele, o apêndice, a amiga, o “status” de encalhada...

Voltando ao caso, a igreja era linda de morrer. Fica em uma praça que ocupa todo um quarteirão, cheia de árvores. Majestosa, comporta uns 500 convidados sentados, pé direito altíssimo, um vitral maravilhoso ao fundo, uma sacada onde ficará o coral e o moço do violino. Em estilo barroco rebuscado, bem sóbria e bem imponente. A iluminação é linda, postes e banquinhos que dão um ar de cidade de antigamente, um charme. O carro pode parar bem na porta, sem atrapalhar o trânsito. A igreja é como uma ilha de passado e calma em meio ao caos urbano. De babar mesmo.

Agora, segue a dica da experiência: agenda de igreja concorrida e bonita, em qualquer cidade, só abre com um ano de antecedência, tecnicamente, quase dois, porque se estamos em janeiro e podemos marcar para dezembro do próximo ano, são quase 23 meses de antecipação. A questão é que só se pode marcar casamento, no máximo, para o ano seguinte. E se minha amiga queria casar em setembro, do ano que vem, tem que marcar em janeiro deste ano.

Chegando à fila, tentei fazer cara de normal. Olhava uma por uma e pensava “e a bonitona aqui encalhada”...

Fiz cara de muita tranqüilidade, tentei parecer normal, relaxei a testa, mas percebo que a concorrência está toda tensa pra ver se “a” data ainda está livre. Todas se olhando, reciprocamente, pensando: “que dia será que essa baranga vai querer”... Tudo bem que a agenda ainda nem tinha sido aberta. Eu queria qualquer dia de setembro, sábado, às 20 horas. Pode ser às 19 horas também, sábado é um dia ótimo pra casar, dá tempo de todo mundo ir pro salão, fazer tudo, e ficar na festa até tarde. Descansados. Sexta não, sexta é mais arriscado de ter estresse. Se bem que, em certos casos de encalhamento crônico, até segunda-feira é dia bom.
Pra relaxar e pra dar sorte pra minha primeiríssima amiga-cliente comecei um mantra mental: sábado, sábado, sábado... Mantra e respiração ayurvédica... ayurvérdica?... ayruvédica?... ayuvérdica? ... Então, resumindo, respiração zen, pra não estressar com o nome da respiração. Respira. Respira.

Fiquei lá respirando e, de repente, me deu vontade de conversar com a moça da frente.

Isso é outra coisa relevante de se saber sobre mim. Puxo papo até com aqueles bonecos de papelão que ficam em locadora. Preciso dizer também que sou míope e quase nunca uso óculos, pra não comprometer o visual. Mas que aqueles bonecos de papelão confundem a gente, principalmente se você está distraído, isso confundem. Olhando de longe, então, parece gente. Que nem aquele filme do Will Smith.

Retomando o fio da meada, mais uma vez, estava eu lá respirando e me segurando pra não puxar papo com a moça da fila.

Pensei em me concentrar e me conter.

Pensei também: você não conhece a moça da frente, puxar papo não é uma boa idéia. Não converse com estranhos é um preceito básico fundamental da segurança e da boa educação. Não cutuca a moça da frente, pode parecer que você não tem classe. Pensa: rival. Vai que é dessas invejosas que, só porque está na sua frente vai querer roubar o dia e hora. Respira fundo. Respira fundo, isso. Mexe na bolsa.

Mexer na bolsa é uma ótima estratégia quando uma mulher está sem o que fazer, porque bolsa de mulher é sempre uma bolsa de mulher, cheia de coisas perdidas em cantinhos. Achei o chaveiro que tinha perdido. Ótimo. Um brinco que eu nem lembrava que tinha. Minha agenda, meu celular, meu palmtop, meu carregador de celular, minha lixa, absorvente dia – se ficar menstruada de dia, absorvente noite – se precisar trocar a noite, ob – se o caso for de piscina, rímel, lápis, colírio, blush, corretivo, batom, gloss, canetinha, bloquinho de anotações, bombom – para os dias de menstruação, barrinha de cereais – para os dias de dieta, bolsinha de remedinhos – para os dias de estresse, cólica, dor de cabeça, ressaca, enjôo, inchaço, intestino e preso, carteira, carteira de motorista, documentos do carro.

Ai, a moça desconhecida com quem eu não queria puxar papo começou a olhar descaradamente para minha bolsa. Movimentos lentos. Tive vontade de falar expressamente: “Ou, psiu, com licença, querida. Quer tirar o olho da minha bolsa?”

Movimentos lentos, despistei, fingi que não estava notando. Olhei pra frente. Olhei para os lados. Pus os óculos escuros para observar melhor a adversária. Espreguicei. Alongamento de pescoço, girando, como na ginástica. Para o outro lado, girando. Parei pra não ficar tonta e baixar a guarda. Vamos ver se a fofa desconfia. Vamos lá, estratégia. Resiste. Respira. Não puxa papo. Fecha a bolsa logo. Fechei a bolsa.

Foi quando não resisti e falei: A fila tá parada, né?

E ela, naturalmente superior, respondeu: É porque ainda não abriu... - ninguém merece esse olhar superior de “quem é a desinformada que nem sabe o horário de funcionamento”...

- Como assim? – deixei escapar mais este comentário que revelava minha absoluta ignorância.
- Só abre ao meio-dia! – mais uma vez, o olhar “presta atenção na vida, minha filha!”.
- Sério? – melhor assumir a ignorância logo.
- Sério. – resposta entendiada. Tive praticamente que deduzir que foi isso que ela falou. Mal-humorada. Como será que seu noivo te agüenta, hein, hein?

Novo problema: ainda nem estava aberta a igreja e eu não contava com isso. E agora? Não podia ficar lá até... sei lá até quando...Decidi importunar a chata de novo:

- E que horas que fecha? – pergunto, com ares de argüição, testando os conhecimentos da exibida.
- Cinco e meia.
- Sério?
- Sério.


Outra constatação. Preciso parar de perguntar se é sério quando alguém está me respondendo alguma coisa. Tenho essa mania e qualquer dia desses alguém vai me dar uma resposta atrevida: não, não é sério, falei só pra te irritar (meu pai é craque nessas respostas).



Voltando ao caso, que já está se estendendo mais do que devia, pensei, já são 11 horas. O noivo de X deve estar saindo da sala de cirurgia. Vou tentar a amiga de novo. Fora de área. Que droga. Todo mundo que eu conheço ainda está viajando. Será que pode contratar alguém pra ficar aqui na fila por mim? Não precisa disso, eu acho. Amiga... chamava... chamava... não atendia. Normal. Nunca atende.

Quer saber? Fui embora. Onze e meia, mas eu fui embora. Só faltava meia hora, mas não posso deixar o escritório sozinho... Novamente, vou apelar para a chata:

- Aqui, licença. Você sabe se só a noiva pode marcar?
- A noiva, o noivo ou qualquer dos pais dos nubentes, mediante o pagamento da taxa de 150 reais, no horário de meio dia às cinco e meia da tarde. Ambos os noivos tem que ser católicos apostólicos romanos, batizados, crismados e, de preferência, paroquianos.

Anotei isso...

- E você é mãe de noiva? – apelei. Que mulher mais ressentida, não é possível que homem algum agüente isso.
- Sou melhor amiga de noiva. – respondeu.

Encalhada, pensei. Melhor amiga encalhada... Não vou mais render assunto. Melhor parar de conversar, antes que o encalhe vire revolta e volte-se contra mim. Não resisti.

- E você tá marcando o lugar?
- Não, gosto de ficar parada na porta da igreja mesmo. Exercitar a paciência e pagar meus pecados. – a ressentida engrossou.
- Então, tá. Acho que vou voltar amanhã.

Gente metida, essas melhores amigas encalhadas...

Fui andando calmamente nos paralelepípedos. Verificando cada um deles e calculando a distância exata para que meu salto não ficasse preso, nem me desequilibrasse.

De repente, mais ou menos no meio da distância entre a igreja e meu carro, sem maiores explicações, o céu se abriu e a chuva desabou. Chuva típica de verão. Tempestade.

Sabe aquela chuva de vento, que ninguém sabe de onde vem? Uma chuva literalmente horizontal, que não tem sombrinha que amenize? Então. Dessa espécie.
Então, vislumbre o cenário. Minha blusa era branca. Bolsa agarrada na frente, tentando evitar a nudez inevitável. Blusa colada, sutiã completamente revelado e a bolsa caríssima de camurça molhada que nem um cachorro de rua. Tudo isso, pra piorar, bem em frente à igreja. Depois dessa achei que não casava nunca mais. Deus não vai aceitar que eu entre de branco na casa Dele. Pior. Pode mandar um temporão desse no dia.

A linda praça da igreja virou um enorme quarteirão a ser percorrido. As árvores não protegiam nada, pelo contrário, só engrossavam os pingos que, a essa altura, já estavam bem volumosos, tentei correr com meus saltos nos paralelepípedos.

Pequena observação, dentre tantas outras que já fiz aqui: mulher correndo de salto é um espetáculo de terror. Aquela ligeira flexão de joelhos, seguido de um afastamento das pernas, é o ápice da deselegância. Glorinha Kalil reviraria no caixão, se estivesse morta...
E daí? Se Deus já estava me vendo pelada, não ia achar ruim de me ver deselegante. Se bem que Deus, em sua onipresença, deve me ver pelada sempre. De qualquer forma, é melhor que me veja esforçada, tentando sair da frente de Sua santa casa. Decidi correr.

Como corrida de salto molhado no paralelepípedo não podia dar certo, tropecei. A queda deve ter sido linda.


Eu, pessoalmente, queria ter visto de outro ângulo, diferente do que eu estava, vendo os paralelepípedos se aproximarem. Deve ter sido uma espécie de corridinha do começo de Baywatch, só que com a Betty, a feia, no lugar da Pâmela Anderson.
Senti que caia em câmera lenta, música de fundo e tudo mais, tentei segurar a bolsa. Quando os paralelepípedos se aproximaram demais do meu rosto, tentei me proteger, a alça da bolsa veio descendo, como se meu braço fosse um corrimão. Bolsa ao chão, joelhos ao chão, mãos ao chão. Chão, chão, chão, chão, chão, chão. Não tem um funk assim?

E foi o que se viu: eu, semi-nua, posição de malhar glúteos, em frente à casa do Senhor. Só é sexy escrevendo e imaginando, porque, de fato, não havia nenhum mínimo resquício de sensualidade. Joelhos ralados, queixo ralado, tudo meio sujo daquele pó de asfalto molhado, sujeira horrível...

Olhei em volta. A ressentida encalhada da fila me olhava com uma dose de ironia. Cogitei simular um desmaio, mas descartei quando entendi que meu cabelo ia ter que encostar no paralelepípedo e lembrei que já estava mais do que atrasada para o trabalho. Levantei-me, catando meus restos de dignidade pelo chão e, da melhor forma possível, andei rumo ao carro. Decidi que era melhor ir sem os sapatos mesmo.

Enfim, o carro.
Na rua íngreme, no chão de paralelepípedos, com graminha e aquela chuva. Enfim, o carro. Abro a bolsa: onde estão as chaves? Reviro a bolsa. Porque fui mexer na bolsa, as chaves foram parar lá no fundo.

A chuva já nem incomodava mais. Estava pelada, molhada e bem resolvida. Bom exemplo pra notar o que uma simples chuva pode fazer por você. Mulheres, sempre parem o carro longe e sempre saiam sem ter guarda-chuvas! Quem sabe não cai uma chuva dessas, existencial, que te liberte dos pudores? Uma chuva pra lavar a alma, pra refrescar os pensamentos e pra revelar ao mundo seu cabelo como ele realmente é. Devia estar delirando, ou ficando gripada, com certeza.

Concentro-me e acho as chaves, ali, fácil, entre os brincos, a agenda, o celular, palmtop, carregador de celular, lixa, absorvente dia, absorvente noite, ob, rímel, lápis, colírio, blush, corretivo, batom, gloss, canetinha, bloquinho de anotações, bombom, barrinha de cereais, bolsinha de remedinhos, carteira, carteira de motorista e os documentos do carro.

Ufa! Entrei no carro, com calma e delicadeza. Respirei, mas àquela altura, esse exercício de respiração já estava me irritando. Olhei para frente e constatei que alguém havia colado a traseira no meu pára-choque, bem na ladeira de paralelepípedos. Olhei para trás e constatei que alguém havia colado o pára-choque na minha traseira também. Respiro de novo, melhor respirar. Vamos lá.

Já disse que sou má motorista, mas não fui muito sincera. Sou péssima. Existem chances de eu seu a pior motorista de todos os tempos. Ainda não sei como consegui tirar minha carteira (e juro que não tentei seduzir o examinador).

Pus no ponto morto. Virei a chave. Ótimo, ligou. Pé no freio, solto o freio de mão. Péssima idéia, o carro está descendo. Puxo o freio de mão, pé no freio, engato a primeira. Desviro a chave. O freio de mão segura o carro, o freio de pé, não.

Calma. Muita calma nessa hora. Pus no ponto morto, virei a chave, soltei o freio de mão, pisei no freio, desceu mesmo assim, esse freio não vale nada. Freio de mão puxado até o limite. Meu carro a um fio de cabelo de distância do carro popular da frente. Respiro. Respiro. Olho pro carro de trás. Um carrão importado. É mais fácil (e vai ser mais barato) bater no carro da frente. Porém, bater no carro de trás pode ser mais vantajoso, afinal, ele que vai ter batido na minha traseira. Nada disso. Não vou bater em nenhum.

Virei a chave, tentei engatar a ré ainda com o pé no freio. Não dá. Tiro o pé do freio, pronto, o carro desceu mais um pouco. Está muito perto de bater.
Pensei: tenho que acelerar, engatar a ré e manter o carro parado ao mesmo tempo. E como é que uma loira ao volante vai fazer isso?

Eu precisava de três pés. Queria pisar no freio, para o carro não descer, na embreagem, para conseguir engatar a ré, e no acelerador, para o carro andar para trás no morro. Tudo ao mesmo tempo.

Sem solução aparente para o meu problema, virei a chave na ignição, pus um pé no freio e o outro encostado na embreagem. Na falta de pés, usei a mão direita para me segurar no freio de mão, enquanto a esquerda tentava alcançar o acelerador, para soltar o freio de mão e conseguir apertar os três pedais do carro ao mesmo tempo.
Preciso confessar uma coisa, agora, eu disse que aumentava as coisas que escrevia, mas garanto que o parágrafo acima é 100% verdadeiro. Eu fiz isso mesmo, do jeitinho que estou contando.
Obviamente, não deu certo. Eu, que fui reprovada no primeiro psicotécnico que fiz na vida, não tinha coordenação motora para tantos pedais e comandos ao mesmo tempo. O carro desceu e bateu no popular da frente.

A única coisa que consegui pensar foi: que bom que na minha frente não estava o carro importado. Pelo menos, agora meu carro estava devidamente encostado em outro, sem chances de descer mais.

Desci, tranquilamente o freio de mão. Mini-crise de pânico: e se o carro da frente tiver o freio de mão tão bom quanto o meu. Imagina, o carro lá embaixo, descontrolado pela avenida, numa ribanceira dessas? Precisava andar logo..

Por sorte, o carro da frente segurou o meu, e consegui sair da vaga.
Já estava atrasada, não conseguia marcar o casamento da amiga x nem falar com ela pelo celular. Tratei de ir pro trabalho, o almoço ia ficar na vontade mesmo. A chuva, do mesmo jeito que tinha começado, tinha parado.

Descendo a rua, ainda consegui ver, pelo retrovisor, a cara de brava da chata ressentida encalhada da fila quando se deparou com seu carro popular, batido.

É, o cartão de crédito estava certo: tem coisas que o dinheiro não compra.