sábado, 6 de setembro de 2008

A bonitona encalhada e todas as bonitonas encalhadas dentro dela



De vez em quando, é bom a gente dar uma paradinha e, de um jeito mais ou menos consciente, analisar o que temos feito da vida (e o que a vida tem feito da gente). Então, vou aproveitar esse domingo para dar uma paradinha nos casos da bonitona encalhada e explicar como funciona.


Em primeiro lugar, você tem que estar meio à toa, assim, de bobeira. É um exercício bom para logo antes de dormir, para durante o banho, ou, em qualquer outra hora vaga.


Comece a pensar na pessoa que você é, tentar se olhar e olhar sua vida como se estivesse de fora. Eu tento fazer isso com alguma freqüência, e sempre me deparo com o quanto podemos nos olhar com outros olhos, como se fossem olhos de outros, e descobrir que acabamos sendo pessoas diferentes das que planejávamos, sonhávamos, acreditávamos.
Não sei se só eu sou assim, mas muitas vezes lembro de mim, em alguma atitude, em algum gesto, alguma palavra dita a alguém, e, simplesmente, não me reconheço. E isso, felizmente, acontece para o bem e para o mal, antes que você comece a pensar que me tornei alguma espécie de monstro maquiavélico frio e calculista.


Acontece, por exemplo, quando eu faço um trabalho bem feito e, revendo-o, consigo superar minha vergonha e autocrítica e achar que ficou bom. É o que acontece quando me pego fazendo coisas que minha mãe sempre fez, do jeito que ela sempre fez, e que eu sempre critiquei. É o que acontece quando ficamos impacientes no trânsito, grosseiras com colegas, e amável com pessoas que nunca vimos antes. Acho bom poder me surpreender comigo, porque os outros, de uma forma ou de outra, tem a capacidade de nos surpreender sempre.
Essa volta eu dei pra dizer que, no fundo, ser mulher é ser muitas.
E sempre que penso nas várias mulheres que cada mulher é, lembro com carinho de uma bonequinha russa, que ganhei de Simone, uma amiga muito querida.
Não sei se todos conhecem a Matryoshka, que é uma bonequinha de madeira, muito linda e delicada, que “abriga” outra, que abriga outra e assim sucessivamente, dentro dela várias outras, idênticas, mas menores. Descobri na internet que a tradução de Matryoshka é "mãezinha".


Adorei e adoro minha bonequinha russa, linda, cheia de metáforas com as quais vou poder me divertir por tanto tempo... Afinal, o que são, ou quem são as outras bonequinhas que aquela boneca guarda?
Pensei primeiro que fossem várias versões dela mesma, muito parecidas por fora, cada uma mais escondidinha, como os vários eus que escondemos dentro de nós, os eus que vamos revelando aos poucos e para poucos, pouquíssimos que conseguem chegar à nossa última instância, à nossa primeira essência: pequenininha, mas indivísivel, guardada pelas outras todas em que a gente se transforma: profissional, amiga, namorada, menina, mulher, aluna, aprendiz, companheira, irmã, mãe, tia...
As nossas cascas são muitas, vão se abrindo, revelando outras etapas, outras matérias, outros jeitos de ser, de agir, de falar, de sonhar...

Uma bonequinha que é tantas, mas que, olhando por fora, é uma só.
Pensei também que a bonequinha podia ser cheia daquelas que vieram antes dela...na bisavó, na avó, na mãe, em todas aquelas mulheres que foram de certa forma, contribuindo e influenciando para que aquela estivesse ali, maior que elas, melhor que elas, mais detalhada, aprimorada.

É isso que somos, não é? Uma porção de genes que progredindo, evoluindo, melhorando, cuidando (e haja tratamentos estéticos), mas que provam que a gente descendeu daquele ancestral comum e que, quanto mais próximo, mais marcas deixa na gente, às vezes um tom de pele, às vezes um olhar, um levantar de sobrancelhas, um jeito de dar gargalhada ou o tom de voz...às vezes uma canela fina, ou uma perna grossa, às vezes uma simpatia imensa, às vezes uma braveza incorrigível.

Enfim, como eu já disse, uma bonequinha que é tantas, mas que, olhando por fora, é uma só...
Pensei também que a bonequinha pode ser recheada pelas escolhidas dela.

Suas amigas que, com o tempo, com a convivência, com a amizade, acabam sendo incorporadas, trazidas para dentro dela...e por serem parte da outra, que as abriga, tem seu jeito, sua cara, fazem parte do seu coração, suas eleitas, suas pessoas, seus pedacinhos que faltavam, porque a vida é muito vazia se a gente não tem ninguém pra por dentro dela.

A vida pode ser oca se a gente não acha por ai, na escola, no prédio, na faculdade, na academia, na casa da vó, no colo da mãe, ou, ainda não sei, dentro da nossa barriga, essas outras que vão trazer tantas e tantas coisas...E ai, a gente chega à mesma conclusão sempre: uma bonequinha que é tantas, mas que, olhando por fora, é uma só...
Ainda não me decidi sobre qual é a opção certa.

Talvez, olhando para minha bonequinha, ainda possam surgir novas hipóteses. Mas uma coisa é certa: elas funcionam juntas - não dá pra sumir com uma, as outras ficam sem lugar, fica um vazio sem preencher, fica um espaço esperando para ser ocupado. Não dá para substituir, cada uma tem seu tamanho e sua importância.
E, por eu ser assim, mulher, sei que também sou, de certa forma, uma bonequinha com muitas outras dentro, e tento ser, cada vez mais, uma bonequinha com mais coisas dentro: uma mulher cheia de descobertas, de novidades, de ensinamentos, de garra, de vida, de alegrias, de receptividade, de abertura. Uma mulher em que sempre haja espaço pra mais gente, amor, alegria, aprendizado uma mulher nova a cada dia, e livre e independente o suficiente para me assumir dependente de carinho, afeto, apoio e de todas as formas de amor.

2 comentários:

Keil disse...

Oo o osério, muito bom o post! acho tri trazer a tona a questão de parar de criticar os outros e olhar para nós mesmos e ver que há de errado!!!
Té +

Thaís disse...

aaaaaiiii.... Amei esse! Já conhecia suas teorias, mas pensei nelas todas de novo!!! Te amo!