quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Só hoje

Em tempos de lei seca, aviso aos navegantes: não bebo. E mesmo sóbria, dirijo pior do que muitas pessoas completamente embriagadas, como, inclusive, já contei.
Não sei dizer das minhas qualidades, mas assumo todos os meus defeitos e não os escondo de ninguém, até me orgulho um pouco deles. Assim, fica mais fácil explicar quando as coisas erradas acontecem. Costumo só comentar: eu te disse que eu era desse jeito, ou, eu te avisei que eu não sou boa nisso.
Meu problema na direção é tão sério e tão sabido, que mesmo com essa história de não poder beber nada, as pessoas ainda assim se recusam a me passar as chaves dos carros. Chegam ao absurdo de pedirem táxis, comigo lá, me prontificando a assumir a direção e deixar todo mundo seguro em casa.
Eu andava meio incomodada com isso, até o dia em que meu pai, com a sinceridade extrema que lhe é peculiar, me explicou, didaticamente e sutil como uma pisada de elefante: filhinha, é que, do jeito que você dirige, o policial nem precisa do bafômetro para dizer que você está bêbada e, mais que isso, o conserto do carro pode ser bem mais caro que a multa. Com o táxi o prejuízo é menor, amanhã a gente busca o carro.
Não pude nem refutar. Sempre dou umas batidinhas. O retrovisor, a roda, laterais das portas, essas partes mais externas do carro, em geral, acabam ficando amassadinhas mesmo. Posso dizer que, em carro que eu dirijo, o pára-choques justifica seu nome auto-explicativo.
Só que, nem sempre foi assim. Quer dizer, eu sempre dirigi muito mal mesmo, desde as 72 aulas de auto-escola, mas a parte de não beber é nova.
A minha resistência ao álcool não é das maiores, fico fácil e visivelmente embriagada com pequenas doses do que quer que seja, até uns dois bombons de licor já me deixam assim, levinha...
Não sei, talvez uma espécie de castigo divino tenha recaído sobre minha cabeça, Deus esqueceu de me dar essa capacidade de beber e de me drogar, justamente porque já me fez naturalmente avoada e com uns pensamentos delirantes, desses que a maioria das pessoas normais (quem são as pessoas normais mesmo?) tem quando bebe ou se droga.
Eu, se fosse me definir, além de bonitona encalhada, diria que nasci bêbada e auto-censuro a maior parte de minhas idéias e empolgações, porque as pessoas sóbrias simplesmente não entendem.

Os sintomas de bêbado, todos, manifesto-os sóbria. Choro sem motivo aparente e sem ser véspera de menstruação, danço como se ninguém estivesse olhando, declaro meu amor aos amigos, rio, dou vexame, o pacote completo. Porém, a decisão definitiva sobre a abstinência alcoólica precede a nova lei.
Vamos direto ao problema, que depois eu me explico: acho que vomitei na minha sogra. É verdade.
Se você está se perguntando como a bonitona encalhada pode ter sogra, guarde sua dúvida para daqui a pouco. Vou respondê-la em breve. Porém, é possível que o vômito esteja diretamente ligado ao encalhamento.
Dito isto, vamos ao caso.

O caso é que a temperatura da cidade estava um horror, o que me faz ter novas intenções legislativas (além de proibir ruas de paralelepípedos) de também proibir o trabalho quando a temperatura ultrapassa os 30º e obrigar todos a se dirigirem ao clube mais próximo. Esperei, a semana inteira, pelo sábado de sol...
Acordei, linda, leve e solta, numa manhã ensolarada na fazenda e, obviamente, fui à piscina. Deitei na espreguiçadeira e, pronta e inadvertidamente, aceitei uma caipvodka preparada com todo o carinho pelo tio Paulo. Estávamos nós, ali, mais família impossível, sogra, sogro, meu namorado, repito: na-mo-ra-do, um tio e uma tia, éramos seis e, de repente, o improvável.
Beberiquei dois copinhos, pequenos, talvez dois e meio, conversei alegremente e exaltadamente sobre coisas e valores que, às vezes, me angustiam e incomodam. Não cheguei a ficar bêbada, fiquei bem sincera, bem aberta, falante, mas não ébria dando vexame. E, depois de um mergulho, lá estavam elas: quatro Patrícias em minha frente.
Esclareço nesse ponto que não tenho nada contra minha sogra, muito pelo contrário. Acredito até que poderia conviver com 4 delas (e acho até que já convivo, haja vista a existência das melhores amigas). Porém, naquele momento, não entendi nada: estou louca?
Não, não estava louca, estava bêbada. Muito.

Tentei ainda, por alguns micro instantes, fechar os olhos e esperar o enjôo passar, mas a cabeça pesava e o mundo, mais do que nunca, girava. Olhos fechados, senti que vinha tudo de volta, no caminho errado, trajeto estômago rumo à boca, e veio tudo, caipvodka, água, sei lá, e meus olhos não abriam, não vi nada.
Depois da primeira vez (sim, outras vezes se seguiram à primeira), de um vômito (que eu insisto chamar de vumito) incontrolável e sem alvo - o que ainda hoje me aflige, diante da perspectiva dos respingos atingindo alguém - ainda tentei recuperar alguma dignidade, mas meu corpo não mais respondia. Virei uma plasta amorfa (sabe quando você se deita, de biquíni, e todas as banhas se espalham? pois é, foi assim), vomitante e sem abrir os olhos.
Talvez eu tenha dito algo, espero que nada comprometedor, ouvia vozes longínquas de preocupação, mas nada no mundo fazia minhas pernas obedecerem aos meus comandos de levantar. Horas depois, aos cuidados dos pais do meu namorado (que tentava encontrar os meus pais, meus donos e protetores nesses momentos), desperto e me dirijo à sala, onde, por mais que conseguisse me manter acordada (e menos exposta) nada se mantinha em meu estômago.
Considerando esse episódio, somado a outro numa festa de semana santa (que deu origem ao já lendário "kit Laurinha", composto de plasil injetável e dramin moído, com gatorade para reidratar), acho que sou alérgica a álcool (teoria do sogro, sempre educado), ou talvez tenha sido apenas um dia ruim. Minha mãe, criativa e inesperada, criou uma série de explicações: deve ter sido uma combinação explosiva de choque térmico com chicletes de barriga vazia, e algumas outras que não amenizaram meu desconforto...
Pois bem, vocês podem imaginar como foi o domingo, de recuperação do corpo ainda debilitado e a segunda feira. A maior ressaca moral quase superando a física.
De toda forma, estou aqui, agora, escrevendo o texto da redenção. Acho que é um texto de cura, como poderia sugerir Freud.
Até onde eu entendo (bem pouco) de Freud, têm coisas que Freud explica, mas explicar Freud, bem explicado, acho que nem ele. Arrisco. Freud achava que se o paciente entendesse o problema, a origem inconsciente de seus sintomas, estaria curado. No entanto, meu texto não explica bem a origem, não sei porque fiquei tão mal, nem porque bebi, mas depois do dia, evito contatos alcoólicos. Inclusive em casamentos.
É triste perceber que nunca serei uma mulher chique, altiva, dessas que sempre estão bem e plenas com uma tacinha na mão.
Todavia, quando não consigo me conter e tomo a primeira dose, é bom que alguém me contenha, porque, como dizem popularmente, a outra mulher que se apodera de mim após uns drinques é de uma energia impressionante. No último casamento, ela, a louca embriagada, desceu até o chão, fez discurso para os noivos, dançou dança da cordinha, puxou escola de samba se sentindo “a” mestra de bateria. Isso não tem explicação freudiana que resolva. Será que quando eu bebo meu inconsciente domina o consciente? É versão do meu cérebro para a revolução do proletariado?Por tudo isso, cada vez que recebo um convite de casamento, já me preparo como se fosse freqüentar uma reunião do AA.
Hoje não vou beber. Só hoje.

5 comentários:

Catarina disse...

Como é bom acordar e dar de caras com um post novo!
Nem me fale em bebidas alcoólicas, pq eu tb devo ser alérgica e dou algum vexame. O pior é que eu adoro uma caipirinha e tento sempre controlar-me! Mas basta eu dar 2 goles que pronto, as orelhas e as bochechas já tratam de dar o alerta geral, ficando super vermelhas!E lá fico eu, bem levezinha, a rir muito e a dizer besteiras...enfim, tristes figuras...
Bjos

Lívia disse...

Como assim vc "desencalha" e prefere escrever sobre o vexame..
Deixa isso para depois e conte como se tornou apenas a bonitona !!!
Por sorte, tenho resistência etílica..
Não canso de repetir que adoro seus textos!

Barbara disse...

Laura,
eu te falo que vc não é encalhada e vc não acredita.
Agora vai ter que esclarecer pra seus leitores sua teoria do encalhamento.

Thaís disse...

Ahá!!!! Eu sempre disse que as batinhas no carro não eram minhas!!! Agora assumiu publicamente! E depois ainda tentou me distrair contando óutras histórias... MAs eu prestei bastante atenção lá no comecinho... E vou até mudar a frase da Clarice: A mulher que dava batidinhas no carro, infelizmente, não era eu!!! hahahahahahaha... Mas te amo ainda assim, viu? Minha encalhada predileta!!!
Beijos...

mariloyola disse...

Laura,

Sou amiga da Fafa e da Rê e acho seu blog SENSACIONAL!!! Passo mal de rir todos os dias!!!
Parabéns pela forma bem humorada de encarar os contratempos da vida e pelas belas teorias (a dos Pratinhos deveria ganhar o Nobel)...
Beijos,