domingo, 7 de setembro de 2008

Bolo em fuga

Depois do dia da igreja, percebi a oportunidade de me tornar uma “personal friend of Bride”. Isso significaria colocar-me à disposição de noivas neuróticas (como as daquele outro programa de TV a cabo), para resolver as coisas chatas do casamento, que não podem ser resolvidas por quem não tenha muita intimidade com a dona do grande dia. É que não dá pra mandar a dona do cerimonial decidir sua lingerie, por exemplo.

Essa opção por me tornar personal friend of Bride, ou personal bonitona encalhada, ou qualquer espécie de personal, porque, atualmente, nada mais chique que ser/ter um personal qualquer coisa. Quanto mais exclusivo esse “qualquer coisa” (porque um reles personal trainer é como se fosse a TV aberta dos personal, aquilo que todo mundo tem, o básico, muito pouco pela multiplicidade de canais exclusivos da TV a cabo).

O título que irei adotar ainda não decidi, mas a opção de ser personal seja lá o que for decorre de duas características muito marcantes em mim:
- característica marcante 1 - não sei dizer não;
- característica marcante 2 - tenho o dom, único e certeiro, de atrair programas de índio, tendo sido merecedora, diversas vezes, do troféu cacique de ouro e da menção especial honrosa pajé.

Percebo que a característica marcante 1 acaba por, diversas vezes, resultar na característica marcante 2, mas tenho que reconhecer que, muitas das vezes, eu mesma, por minhas próprias idéias, invento programas de índio.

Enfim, considerando as duas características, conclui que seria uma ótima pessoa para entrar nas frias que a vida pré-nupcial apresenta. Pensei também que, como trabalho voluntário está na moda, poderia até enquadrar essa nova atividade na categoria “ações de caridade”, o que dá uma melhorada em qualquer currículo. E quem irá dizer que não existe uma alta dose de altruísmo em ir escolher tecido de vestido das daminhas num sábado de manhã?

Então, assim que descobri essa nova atividade não remunerada, sai anunciando, à procura de novas cobaias. Cobaias sim, porque, confesso, além de ajudar os outros, eu fico observando as pessoas, as reações, os sonhos. Assim, tenho a oportunidade de aprender muito sobre casamentos, e irme aprimorando sobre o tema, sem ter que me casar várias vezes, como o Roberto Justus e o Otávio Mesquita.

Minha primeira tarefa foi organizar um aniversário de amiga que ia se casar, e que estava completamente sem tempo pra isso. Na verdade, aniversários não eram exatamente o que eu tinha em mente quando aderi com convicção ao ramo de personal alguma coisa, tão em voga.

Entretanto, minha amiga pediu com tanta ênfase que, como não sei dizer não, disse sim.


Também, coitada, era tanta coisa que ela tinha que ver, olhar, decidir, que me pediu para fazer a reserva do aniversário dela em algum lugar, grande, que coubesse os convidados e, como não poderia deixar de ser, com cartela de consumo individual, porque, em épocas de pagar casamento, não se pode ficar desviando o objetivo para outras festas.

Aos dezoito anos, comecei a aderir ao que Walcyr Carrasco, hoje autor de novelas muito famosas daquela emissora do plim-plim, naquele tempo só mais um dos cronistas que eu amava, num texto que até hoje amo e recomendo, denominou "O Golpe do Aniversário".
Em breves linhas, o Golpe do Aniversário consiste em chamar as pessoas para um lugar legal, bacana, descolado, no esquema “cada um paga o seu” (recomenda-se, nessas ocasiões, um lugar que tenha cartelas individuais de consumo para evitar o que eu denominei de "Segundo Efeito Reverso" do Golpe do Aniversário, que consiste em ter que pagar o que cada convidado deixa a menos, o que se agrava dependendo do tanto que cada um bebe e se agrava ainda mais dependendo do que cada um “esquece” que consumiu).
Esclareço, aqui, que o primeiro efeito reverso do Golpe do Aniversário é não receber presentes, porque descobri, após anos e anos de observação, que a maior parte das pessoas considera o presente como sendo uma contraprestação pela boca livre proporcionada pelo aniversariante. Sendo assim, as pessoas não se sentem na obrigação de dar presentes quando vão pagar pelo que ingerirem. Muito ruim para o aniversariante...
Voltando ao caso da amiga, estávamos lá, no lugar bacana onde fiz a reserva, cada um de olho em sua respectiva cartelinha (é impressionante como quando alguém pede uma porção de petiscos, as cartelas somem, parece que ninguém quer correr o risco de pagar sozinho). E quando a cerveja é de garrafa? Melhor nem comentar.
O fato é que, para homenagear todos os que tiveram a idéia de comemorar o aniversário no lugar, os donos ofereciam uma surpresinha, um agrado. Quando ninguém estava prestando muita atenção, de repente, a música ambiente parava, e lá vinham os garçons em fila, cantando o parabéns, super animados.
O problema é que minha amiga não era a única aniversariante do dia, e não havia garçons suficientes para várias filas. Então, a música parou a primeira vez, começou a tocar parabéns, nós, os convidados aplaudindo, olhando pra ela, aquela coisa toda, e lá se foi a fila de garçons cantando para outra mesa.
Cerca de 15 minutos depois, a música pára de novo, outra fila de garçons, e nós batendo palma, de novo, e lá se vão eles para outra mesa! Começou a ficar chato.
Terceira vez, que antipatia essa fila chata cantando, a gente tinha que levantar, né? Alguns se entreolharam: e se, de novo, não for o parabéns dela? Pelo sim pelo não, levantamos, e a fila passou direto.

Eu comecei a sentir um misto de culpa e constrangimento, afinal, eu escolhi o lugar, fiz a reserva e a noiva é sempre um vulcão prestes a entrar em erupção.
Mais quinze minutos, outra parada, novamente parabéns tocando, nós, os convidados da minha amiga, de novo naquela angústia constrangedora, nos entreolhando, será que deveríamos bater palmas? Ela, que de longe avistou o garçom que puxava a fila, avisou:

- Gente é o meu bolo! Podem bater palmas!
Recuperamos o fôlego e batemos palmas, cantando entusiasmados quando, de repente, a fila passa direto e o garçom que levava o bolo, ainda dá um tchauzinho para minha amiga, que havia se afastado da mesa para dar passagem...
Servido o bolo na mesa errada, minha amiga avisa ao garçom, que já se retirava.
Pensei em fazer uma fila com os convidados da minha amiga, e ir lá, cantando, roubar/retomar o que era nosso por direito.
A outra aniversariante, diga-se, estava completamente encantada por ter ganho um bolo enorme, de morango com chocolate.

Minha amiga com os olhos marejados, vai à Gerência.
Agora vocês não vão acreditar: os garçons entraram novamente, em fila, cantando, retiraram o bolo da mesa errada, levaram para a mesa certa (ri, no meu íntimo, da decepção dos convidados da aniversariante que não levou bolo). Coitada da minha amiga. Foi realmente constrangedor.
Todo mundo ficou um pouco constrangido de comer o bolo, no final, até chamamos o pessoal da mesa "errada" para comer também. Assim, entre mortos e feridos, todos se salvaram.

Depois desse dia, decidi restringir minhas ações de assistência social lato sensu a eventos relacionados ao casamento propriamente dito. Afinal, uma bonitona encalhada de requinte tem que ser especialista.

3 comentários:

Lívia disse...

Este blog virou minha diversão diária!! hahahaha

Zelma disse...

Muito bom!Divertido.e muito inteligente!
Sabia q vc era boa, mas nem tanto!!!

Ana Sílvia disse...

Hahahahahahaha.... Não sabia desse aniversário não.. me diverti!
Laurinha, nem preciso dizer que você é minha ultramegasupervip personal! Amo vc!
Beijos, Ana.