sexta-feira, 29 de agosto de 2008

A bonitona encalhada

"Aliás - descubro eu agora - eu também não faço a menor falta, e até o que escrevo um outro escreveria."Clarice Lispector em “A hora da estrela”

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A bonitona encalhada, infelizmente, sou eu.
E essa frase, infelizmente, não é minha, é da Clarice Lispector. Claro que não a parte de ser a bonitona encalhada, que eu sou, mas a Clarice Lispector não era (até onde eu sei). Clarice Lispector era a mulher que matou os peixes, e o conto “A mulher que matou os peixes” começa com a frase: A mulher que matou os peixes infelizmente fui eu.
Já eu, que nunca matei peixes, gatos ou animais em geral (no máximo dois coelhos com uma cajadada só), sou só uma bonitona encalhada e este texto é um primeiro desabafo.
Porque, sobre mim, além de saber que sou a bonitona encalhada, é necessário que você saiba que sou a rainha dramática e exagerada dos desabafos, sempre suspirosa e sonhadora. Sou eu assim.
Por muito tempo esperei chegar mais perto do coração selvagem, aliás, acho que desde que eu conheci o “Perto do Coração Selvagem”, da Clarice, que sonhei escrever uma coisa tão perto, tão do coração e tão selvagem, arrebatadora. Acontece que o tempo foi passando, e, num momento epifânico (o exato momento em que me tornei a bonitona encalhada) constatei que, se ficasse esperando ser a Clarice Lispector não ia escrever nada nunca. E comecei a escrever essas linhas...
Então, antes de mais nada, peço desculpas por não conseguir produzir nenhum primor de literatura, e desde já não prometo nada além de uns casos que aconteceram comigo ou com alguém que eu conheço bem. Quanto ao coração selvagem, bem...posso dizer que meu coração já foi bem mais selvagem.
Minha admiração por Clarice começou na infância, com o texto da mulher que matou os peixes, que já apresentei. Achei essa frase tão forte, na maturidade dos meus nove anos, que nunca mais esqueci. Usei-a com várias aplicações distintas, e posso garantir que afirmar tão categoricamente que você fez alguma coisa sempre traz um certo efeito impactante.
Adorei, desde a primeira leitura, a sinceridade arrebatadora da confissão.
Testei as possibilidades dessa assertiva. Era só minha mãe descobrir alguma coisa que tinha saído errado na rotina que eu usava a frase, mais ou menos assim:
- Laura, você fez dever?
E eu, séria:
- A menina que não fez dever, infelizmente, fui eu.
A menina que sujou a roupa, infelizmente, fui eu. A menina que tira meleca, rabisca a parede, tudo havia sido eu. Muito boa essa Clarice. Sempre achei.
A fase Clarice da minha infância passou no exato dia em que a professora recomendou a leitura de outro livro da mesma autora: “A vida íntima de Laura”.
Foi o ápice da felicidade, eu, que já amava Clarice, eu, que já chamava Laura, não podia me conter quando chegou a recomendação da leitura. Achando-me a figurinha carimbada do álbum, a mais importante das pessoas, atazanei minha mãe para comprar logo o livro.
E qual não foi minha surpresa, quando li o primeiro parágrafo (pelo visto, as primeiras linhas de Clarice Lispector são sempre significativas).
Meu mundo caiu. É só contar esse caso que todas as lembranças voltam à minha mente. Não podia ser verdade. Como eu ia voltar pra escola depois daquilo?
Você não conhece o livro?
Entao, só porque sou muito curiosa, e compreendo com ternura a curiosidade alheia, vou te contar.
A vida íntima de Laura começa assim:
“Vou logo explicando o que quer dizer “vida íntima”. É assim: vida íntima quer dizer que a gente não deve contar a todo mundo o que se passa na casa da gente. São coisas que não se dizem a qualquer pessoa.”
E você, lendo isso, ainda não entendeu o problema, não é?
O problema é que Clarice continua:
“Pois vou contar a vida intima de Laura”.
Entenda, o problema começou a começar, mas o texto continua:
“Agora, adivinhe quem é Laura”.
É, você mesmo, adivinhe quem é Laura!
E eu, naquela época, pensando, esperançosa: Laura sou eu! Sou eu!
Mas Clarice, impiedosa:
“Dou-lhe um beijo na testa se você adivinhar. E duvido que você acerte!”
Esse beijo na testa, era o beijo da morte, o beijo de Judas que Clarice me mandou:
“Dê três palpites. Viu como é difícil?”
Pode dar seus palpites também. Eu espero aqui, não faço nenhuma questão que você saiba disso mais rápido. Porque o livro continuava:
“Pois Laura é uma galinha. E uma galinha muito da simples”.
Laura era uma galinha! Como assim? Eu era Laura e estava na segunda série (e tinha colegas que iam adorar aquele livro, um livro de motivos para me perturbar).
Naquela época, eu ainda não atribuía à galinha, a palavra, o significado vulgar que se costuma atribuir a algumas mulheres, ditas galinhas. O problema é que a galinha, em si, não é exatamente um animal glamouroso, nem bonitinho, desses que você admira quando tem oito anos de idade, mesmo porque não existe galinha rosa. Eu poderia tolerar várias espécies: uma gatinha, uma peixinha, uma ursinha, uma borboletinha...mas uma galinha? Era demais.
A autora, certamente adepta da técnica “bate depois sopra”, tratava de emendar:
“Peço a você o favor de gostar logo de Laura porque ela é a galinha mais simpática que já vi”.
É, não tinha jeito. Laura era uma galinha. E por mais simpática que pudesse ser essa galinha, Clarice contava que ela era bem burrrinha (nessas palavras, mas não quero ficar citando mais), e que tinha o pescoço mais feio do mundo, o pescoço de Laura era horrível.
Por isso, depois da vida íntima de Laura, me distanciei de Clarice. Foi uma fase difícil na vida, dessas que você não quer sair de casa. Ainda tenho complexo de pescoço e complexo de burrinha... Até hoje, quando meu pai me chama, carinhosamente de primogênita, eu retifico: primoburrita. Até hoje me lembro dessa fase difícil da infância. Que falta de sensibilidade dessa professora...
Abandonei Clarice por um longo e tenebroso inverno. Quase uma década.
Andei por outros caminhos, outras estradas literárias lindas. Conheci Machado de Assis. Ácido. Conheci Guimarães Rosa. Grande e prolixo sertão. Graciliano Ramos e Baleia. Saramago e seu ensaio sobre a cegueira, suas intermitências da morte, o evangelho segundo Jesus Cristo.
Amei Isabel Allende e o inevitavelmente perfeito Gabriel Gárcia Marquez.
Tentei escrever realismo fantástico. Se, na ficção alguma coisa se cria é na literatura infantil e no realismo fantástico. Mas para escrever realismo fantástic é necessário que se tenha uma sensibilidade superiormente aguçada e um quê de genialidade, e não sou assim, tão criativa.
Juro que esse livro se baseia integralmente em fatos reais, porque eu não crio nada, só gosto de aumentar o que ouço (pelas minhas contas, aproximadamente uns 30%), pras coisas ficarem um pouco mais leves e a vida ter um pouco mais de graça, mas só faço esses aumentos quando escrevo – porque se falasse seria fofoca, e tiro sempre o nome das pessoas, pra não perder amigos por bobagens. Como na natureza, na literatura, salvo raras exceções, não é muito o que se cria, mas muito o que se transforma.
Sempre sonhei ser escritora, mas nunca tive coragem.
Certo é que, carente de encontrar minhas amigas, comecei a escrever emails para contar meus casos, refletir sobre as coisas que aconteciam na minha vida e, aos poucos, fui gostando muito de fazer isso. Minha vida foi seguindo um rumo de correria, muitas mudanças, que eu vou contando aos poucos, mas o que interessa saber, nesse ponto de partida, é como me tornei a bonitona encalhada.
Tenho uma família pequena. Eu, meu pai, minha mãe e minha irmã, mais nova. Sempre fomos muito felizes e ainda somos, claro que não ininterruptamente felizes, porque senão isso não seria uma família, mas uma versão família do Teletubbies. Enfim, felizes.
Também sempre tive boas amigas, e bons amigos. Vida normal, básica.
Acontece que, de uns dois anos pra cá, surgiu uma epidemia de casamentos em minha vida.
Todo mundo ao meu redor começou a querer casar, marcar datas, fazer orçamentos, olhar vestidos, e emocionar, e blábláblá. Nessa mesma época, há uns dois anos, a Veja publicou uma capa sobre isso: sobre as mulheres quererem se casar.
A capa, de 29/11/2006 (pode conferir, está no site da revista - http://veja.abril.com.br/291106/p_084.html), trazia as chamadas: 9 entre 10 brasileiras que passam dos 40 solteiras continuarão solteiras e confira as chances de uma mulher se casar no Brasil aos 25, 30, 40 e 45 anos...











Pronto. Era o que me faltava. Aquilo caiu como uma jaca na minha cabeça. Corri para a matéria e ela dizia que, a chance de uma mulher se casar entre os 20 e 24 anos era de 68,9%, entre 25 e 29 anos, de 39,9% e de 30 a 34 anos, de apenas 23,1%. Ainda está tudo no site da Veja, pode conferir.
Naquela época, eu estava a um mês dos meus 25 anos, quando, subitamente, acordaria com trinta por cento a menos de chance de me casar. Fiquei meio abalada com a notícia, mas não dava pra arrumar um casamento em 15 dias. Pelo menos eu estava namorando, pensei.
Hoje, dois anos depois, já rumo aos 27, a epidemia de casamentos ao meu redor prossegue. Minha irmã – mais nova – não custa lembrar, meio que casou. Só este ano, já fui a 12 casamentos e ainda estamos no primeiro semestre. O pior? Não peguei nenhum buquê.
Já estive em festas em que crianças de 9, 10 anos, pegaram o buquê. Segundo a Veja, isso é o correto, antes dos 24, qualquer mulher tem quase 70% de chance de se casar. Já eu...
Nesse clima de desprendimento de qualquer ideal de constituir família, estava eu assistindo televisão com meu pai um dia desses e me deparei com o programa: três noivas gordas, um vestido magro.
Trata-se de um reality show em que três competidoras, morbidamente obesas, tentam desesperadamente emagrecer pra caber num vestido de casamento maravilhoso. Morbidamente obesas, é verdade, mas NOIVAS.




Meu pai, horrorizado com o tamanho das mulheres, filmadas dos ângulos mais desfavoráveis possíveis, sem tirar os olhos da tela, disse:
-Essas moças, coitadas, estão se esforçando a toa. Como é que vão arrumar marido?
- Não, pai, expliquei, já tem que ter noivo pra se inscrever no programa.
Ele, então, voltou-se para mim em silêncio, ficou me olhando e disse: as gorduchinhas todas casando, e a bonitona aqui encalhada!
E foi assim que me dei conta do que eu havia me tornado. Esse foi meu humilde, quase pífio, momento epifânico.

Agora, já acomodada com o novo codinome, venho fazer o que Clarice Lispector expressamente me desaconselhou. Vou contar um pouco da minha vida íntima, mas quero deixar bem claro: Laura, aqui, não é uma galinha.
Laura é a bonitona encalhada.

19 comentários:

Bia disse...

Ei Laura!!!
Amei seu texto!!! Espetáculo!
Chorei de tanto rir!
Quero maaaaaaais!
beijos,
Ana Paula
(da Ana Turchette...kkkk)

Lu_menininha disse...

Laura!! sempre me diverti com alguns emails seus q recebi. adoro suas historias e adorei a ideia do blog pra acompanhar sempre!!!
bjo!
Lu (irmã da aninha)

Isabel disse...

Laurinha!!! Amei o primeiro texto da bonitona!! Um brinde para comemorar esse momento! Hei de ler sempre! Será que um dia vou encontrar meu nome aqui em alguma história? Fato é que ri demais! Muito bom!! Parabéns!!! Beijokas Bel

Isabel disse...

P.S Claudinho morreu de rir e disse em suas sempre poucas palavras: "É! Ela escreve bem mesmo!"

Barbara disse...

Bonitona encalhada,
como já era de se esperar, adorei o texto!
Mas cuidado aí, hein? Ficar se intitulando de "bonitona encalhada" só vai atrair mais encalhamento pra sua vida! E já que vc é uma escritora, informo até a fonte: "O Segredo", que a Oprah indicou no programa dela.
Hahaha
Brincadeiras à parte, tudo de bom pra vc e prometo adicionar seu Blog à minha lista de preferidos!
Bjos

Pedro disse...

Agora ninguem te segura né laurinha!!
Depois do blog vem o livro...
Mandou muito bem!
Por favor, continue a escrever com esse seu humor e inteligência única!
Sucesso pra você!
bejo do seu fã,
PB

RFL disse...

Henrique's

Achei demais.

Parabens

R. Lopes

Fafá disse...

Laurinhaaaaaaaa,
Vc é brilhante...
Parabéns pela criatividade e bom humor.
Bjo,

RFL disse...

Quando sair de carro...

AVISE!!!

aHiUaIUahiUA

ferrazfelipe disse...

Lourinha... você como sempre arrasando nos seus "textos análiticos"... hehehehe, sempre fui fã seu e dos seus textos, continue escrevendo sempre... parabéns, beijos Tavares

Lívia disse...

Oi Laura,
Eu simplesmente A-M-E-I seu blog..
Já está na lista dos meus favoritos..
Quer um consolo??
Tenho 30 anos, tbm sou bonitona encalhada, e como sou mais velha que vc já passei pela fase casamentos, estou na fase batizados e festas de 1 ano de filhos.. hahaha
Parabéns.
Lívia

RFL disse...

Levar um salto tipo Drag Queen na bolsa. Qualquer centimetro conta.

HihuaiuAiuAhiAihua.

Não DESISTA NUNCA..

genteminha disse...

LAURA QUERIDA,
SEM COMENTARIOS!!! ARRASOU!!!
VOU TE CONTAR...DEPOIS QUE SE CASAR, SE SE SEPARAR, NUNCA MAIS SE SENTIRA UMA SOLTEIRONA...SO ENCALHADA....KaKaKaKaaaa
BJOS E VOU ASSISTIR FELIZ DA VIDA SEU SUCESSO QUE JA EXISTE HA MUITO....MAS QUE AQUI FICA REGISTRADO!
SIMONE (COLEGA)

Eu sou a Aline! disse...

Adorei seu texto
vc escreve mto bem!

Anônimo disse...

Laura,
Nem sei como cheguei até seu blog, mas amei!
De verdade...
Estou super me identificando!
Bjos
Ana

Lu disse...

Amo Clarice! Minha vida mudou depois de Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres.
Sua introdução ficou maravilhosa.
A menina que achou o blog e veio ler desde o primeiro post, fui eu.

;-)
Bjs,
Lu

Nina Fiuza disse...

O primeiro post sempre é significativo. Já sabia de algumas partes por causa do tal recorte da vovó de que te falei.
Eu também sempre sonhei em ser escritora, mas nunca me atrevi. Também formei em Letras e os clássicos sempre podaram minhas asinhas de escritora. Quando mudei pra SP (pq tb sou mineirinha) e me vi carentíssima de amigas e da mami, comecei a escrever e-mails cada vez mais longos sobre minha vida de mãe-solteira recém-casada. Essas amigas gostavam tanto que repassavam e quando percebi estava recebendo comentários de pessoas desconhecidas. Respirei fundo e criei o blog. Sua história foi uma super motivação. Tomara que eu tenha a mesma sorte.
Ah! Também li a veja na época e me desesperei. Lembro que a reportagem falava alguma coisa sobre os norte-americanos casarem mais que os brasileiros. Cogitei ir pra lá de mala e cuia. hehe

Bom, chega de comentários (...por hoje).


Boa noite!

Geison disse...

Olhando pelo lado masculino consigo ver que a chance de um homem conhecer uma mulher que realmente faça a vida dele valer a pena é inversamente proporcional, ou seja, 31,1% se ela tiver entre 20-24 anos, 60,1% entre 25-29 anos e 76,9% entre 30-34 anos...hj cas-se por medo de ficar sozinha (o), por sentimento de posse, por status, por tudo menos pelo verdadeira sentimento...portanto mulheres, sem desespero, o dia de vcs chegará e será muito mais verdadeiro e duradouro do que a maioria

Rita Tavares disse...

Ei Laura, td bem?
Pois eh, adorei ler o seu post da Bonitona Encalhada, foi uma amiga q recomendou, enfim, moro fora do Brasil e ela esta me mandando o livro para eu ler, sou uma viciada em leitura. Passei por algumas fases de bonitona encalhada, me sentia largada,mas hj, depois de 2 casamentos, me considero uma mulher feliz e realizada com a minha familia.
Vendo vc falar de Clarice Lispector, eu a conheci pessoalmente, qd eu tinha 09 anos, acho q 01 anos antes dela falecer, ela autografou um livro dela para mim... sao historias bem legais em nossas vidas.
Beijos de bem longe e muito sucesso!