segunda-feira, 25 de maio de 2009

Olhos de primeira vez



Há um (bom) tempo, uma amiga da minha irmã foi fazer intercâmbio na Holanda.

O primeiro email que ela mandou foi mais ou menos assim:

"Ei, amiga!
Estou adorando a vida nova. Moro em uma fazendinha, e vou de bicicleta pra escola. É tão bonito o caminho: vejo moinhos, como os dos filmes, tulipas e vacas, na maior paz...

É uma paz e eu ainda faço uma ginástica...chego na aula com a cabeça já em funcionamento e com os pulmões cheio do ar fresco que respiro pelo caminho.

Acho que este tempo fora vai ser muito bom.
Bjos"




O entusiasmo com as novidades era tangível, dava pra sentir pelas palavras. Um cenário todo novo, tantas informações visuais...Passados uns meses, a vida também foi passando, e minha irmã recebe o segundo email:

"Ei, amiga!
Estou morrendo de saudades de você e da minha vida. Queria tanto acordar só 10 minutos antes de chegar na escola, curtir a cama até o último minuto. Não aguento mais pedalar quase 10 quilômetros (só de ida) e ver moinho, vaca, vaca, vaca, moinho, vaca, vaca, vaca. Está frio, chego na aula com os pulmões queimando. Nem as tulipas aguentam.
Bjo".

Sempre que me lembro desse caso eu acho a maior graça. O que no ínicio era beleza e novidade, virou tédio. Os lindos moinhos e a paz das vaquinhas viraram moinho, moinho, vaca, vaca, vaca, vaca.

Somos capazes de anestesiar todos os sentidos. Você não se esquece de ouvir, às vezes? Fica conversando com alguém ao telefone e, de repente, se dá conta de que não tem a mínima ideia de qual seja o tema da longa prosa? Você não deixa de se comover com um abraço. Fica insensível a um toque mais sutil, da sua mãe, da sua amiga, que passa a mão no seu cabelo? Você não engole a comida, e esquece de sentir o gosto? Não passa pelo seu namorado super cheiroso e esquece de sentir o cheiro? Anestesiada, a gente vive, os dias passam.


Para mim, a visão é o sentido mais anestesiado. A gente bate o olho em tantas coisas e simplesmente se esquece de ver, de enxergar. Homens então...hunf! Não percebem que cortamos uma franja super ousada, que fizemos milhares de luzes, que perdemos 10 quilos... Não, estou sendo injusta, os dez quilos eles sempre notam!

Voltando à anestesia, já aconteceu com você de estar passando na sua rua, no seu caminho de todos os dias, ver uma obra ficando pronta e pensar: gente, de onde surgiu isso? O que era aqui antes? Era uma casa? Um lote vazio?

Me sinto muito estranha com isso. Nos acostumamos e deixamos nossa visão ficar bêbada, para o bem e para o mal. Depois de tantos anos, morando na mesma casa, desistimos de olhar, não vemos mais, deixamos de usar. Assim não vemos o moço que dorme sob as marquises, e não vemos o arco-íris que está surgindo. Não vemos a celulite ficando cada dia mais aparente, não vemos o brilho do cabelo de nossa amiga, não vemos o sol lindo e radiante, não vemos o lixo que voltou do bueiro depois da última tempestade.


Quando me assusto com algo que deveria ter visto há tempos e que estava ignorando (como é o caso de alguma árvore linda pelo meu caminho de todos os dias), só me vem à cabeça o mantra: moinho, moinho, vaca, vaca, vaca...dou umas risadas comigo mesma.

Guardamos nossa visão para as novidades: sabemos descrever os detalhes mínimos daquele banco de areia no meio da praia de nossas férias, mas, como é mesmo o nome da lanchonete da esquina? (Mc Donalds não vale!) Pior que tudo é quando deixamos de ver as pessoas. Passamos por pessoas como se elas não existissem, como se fosse parte da paisagem. Nem cogitamos cumprimentar, afinal, ninguém cumprimenta uma árvore, certo?

Errado. Conheço gente que acorda e vão pra yoga, fazer inúmeras saudações ao ar, à àgua, à vida e passa sem mover um único músculo da face para dar um "bom dia" pra quem está na recepção da academia.

Da minha parte, venho tentando, todos os dias, abrir meus olhos para ver, de verdade, tudo o que está a meu redor, como se fosse a primeira vez.

22 comentários:

Walkyria Suleiman disse...

Que bonito Laura, que lembrança mais gostosa. Acho que vou adotar o mantra moinho, vaca, moinho, vaca. A diferença é que pensarei em vc, e sentirei muito carinho. Vou querer seu livro sim. Depois te mando meu endereço pelo e.mail. Ansiosa pra saber de tudo.
bjs da Walll

Ana Guimarães disse...

Linda! Linda!

Natty disse...

Seu texto mudou o meu dia!
Obrigada pelas belas palavras!!!!

Lígia disse...

gostei.

Carlinda Hellen disse...

Estou passando por uma fase q vejo as coisas de forma difrente,essa texto me remente a algumas ideias.


Amei o Texto!


:)

Ernani Netto disse...

Realmente nos acostumamos às coisas e deixamos de perceber a beleza que continua ali!!

Luto muito para que eu nuca me acomode e deixe de ver a beleza na minha frente!

Bjaum

Dai disse...

Muito boa a sua reflexão sobre os sentidos e as sensações que deixamos de sentir por puro desleixo..

Também preciso recuperar a minha visão pra muitas coisas, que de propósito, parei de enxergar...
Esperanças, por exemplo...

Beijinhos..Ótimo dia bonitona

Anônimo disse...

Oi Laura, eu estava lendo uma matéria dias atras que estava falando sobre isso, que ligamos o piloto automatico e passamos pelas coisas sem perceber. O escritor estava explicando que por isso temos essa sensação que o tempo passa cada vez mais depressa, porque fazemos as coisas sem prestar muita atenção então é como se aquilo não tivesse acontecido. Isso é um puxão de orelha para todos nós, prestar mais atenção em pequenos detalhes.
Beijos e meus parabéns pelo seu livro.
Alessandra

Larinha disse...

Perfeito, como sempre. Por isso adoro passar aqui sempre. É quase uma dose de otimismo e boas energias direto na veia - através da visão, olhe só!

Eu lembro quando era criança, minha irmã lia "A arte de ser feliz" da Cecília. E até hoje eu tento aprender a olhar...

Beijucas e boa semana! (adorando o sucesso do livro... jajá vou pedir o meu!)

Laguardia disse...

Não sou jornalista nem escrito. Se quer escrevo bem. Sou aposentado. Meu imposto de renda é retido na fonte pelo INSS. Já nosso querido apedeuta tem sua receita de INSS como anistiado político acima do teto do INSS livre de IR.
Minha forma de lutar contra os desmandados implantados por este governo corrupto no Brasil é através de um blog http://brasillivreedemocrata.blogspot.com/
Gostaria de contar com a presença e dos comentários das pessoas de bem que não se conformam com a desonestidade, a falta de ética e a corrupção em nosso governo.
Um grande abraço

Ana Paula disse...

Amei o texto...fiquei em paz!

Adorei. bjs

Petitinha disse...

Bom dia bonitona ^^
sei que fazemos mesmo isso, tento ser mais atenciosa com as pessoas e com as coisas, mas minha irmã vive reclamando que não dou atenção para ela porque sou muito ocupada e sempre estou pensando nos compromissos, acabo esquecendo de olhar um pouco pela janela da minha vida e observar mais à minha volta.
Ando tentando mudar isso, seu texto é um ótimo incentivo vou adotar o mantra moinho,vaca,moinho,vaca,vaca.
BJOKS.

Rê :) disse...

Te indiquei pra um "mimo" no Blog!! Pega lá, bjos

Patricia disse...

100% certa! por isso adoro vc!
bjos
Pati

Raquel disse...

Oi Laura!
Descobri seu blog semana passada navegando pela net.Fiquei impressionada de como você escreve bem! Mas eu não sabia que você já tinha até livro!
Estava agora vendo um site do Terra e achei uma entrevista com vc.Ri muito do motoqueiro que arrancou a porta do carro!

beijocaas!

Anônimo disse...

Que página linda, Laura! Você expressa tão bem o que a gente sente, de uma maneira tão profunda e sábia! Lendo o seu texto, a gente vê que, de fato, há tanta coisa linda ao nosso redor e nem percebemos.A partir de hoje não vou deixar escapar nada: uma simples florzinha, um cachorrinho, um gatinho ou uma criancinha brincando,tudo isso vai ser muito bem observado e admirado. Grata por seus ensinamentos! Beijos!...

Gabriela Lima disse...

Amei Laura! Isso tudo já havia passado em meus pensamentos, mas a forma com que vc descreveu essa "dormencia" foi fantastica. Muito boa mesmo! Parabens!

Jannie Abrita disse...

Laura, parabens pelo Blog e pelo livro.
Tô me aventurando por ele, aliás devorando!Não dá pra parar de ler...
e tomara que cada dia mais a gente tenha essa disposição de olhar tudo como se fosse a primeira vez!
Grande beijo

tanyssima disse...

Muito legal seu texto. Adorei o 'moinho moinho vaca vaca'. Um jeito leve de abordar um tema nem tão leve assim: a dessensibilização trazida pelo hábito, a cegueira do olhar acostumado...

Lulu disse...

Nooossa Laura,
Que prazer imenso ter sido indicada a ler o seu blog!
Estou há quase 1 hora lendo os posts... me divertindo, emocionando e ficando impressionada com a beleza dos seus textos e a verdade do seu coração!
PARABÉNS! O mundo precisa de mais "Lauras" para nos encher de esperança e conteúdo!

Bjos
Luciana

Gerardo disse...

obrigado, laura,

roberto carlos, goethe e este post "moinho, vaca, vaca" numa mesma página é muito mais do que eu podia esperar de um link que me apareceu por acaso.

espero voltar -- com olhos de primeira vez :)

Ellepo disse...

O relato da sua amiga parece o meu quando cheguei aqui....mas procuro sempre quando este sentimento de "se acostumar" com as coisas se aproxima, abrir meus olhos e enxergar tudo como se estivesse vendo pela primeira vez....é uma questao de treino, nao conseguimos isto da noite para o dia....mas se tentarmos todos os dias um "pouquinho" vai se encorporando...
Saber agradecer e apreciar a rotina o q nos é "confiável" é uma forma de agradecer a Deus pela vida q temos...eu pelo menos penso assim...bjks