terça-feira, 2 de junho de 2009

De repente, não mais que de repente

Vinicius de Moraes tem um Soneto de Separação, que é assim:


De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.


O soneto foi escrito - imagino eu em minha achologia cotidiana - para os términos de relacionamentos. Contudo, ontem, essa frase do começo e do fim (poema cíclico que se fecha e recomeça), ficou, ciclicamente, começando e recomeçando em minha cabeça: De repente, não mais que de repente. Aplicável a todas as separações...

De repente, não mais que de repente, tantas pessoas embarcaram num vôo que, de repente, não mais que de repente, sumiu. Assim, sem deixar vestígios (por enquanto), sem explicações.

De repente, não mais que de repente, me vem a notícia de que uma amiga estava entre essas 228 pessoas e, de repente, não mais que de repente, tudo me pareceu mais confuso. E mais sem sentido ainda.

Como um tapa na cara, me veio Fernando Pessoa: navegar é preciso, viver não é preciso. Voar também não é preciso.

E nessa minha vida que, como todas as vidas, é imprecisa e insegura, conheci a Júlia.

Fomos colegas desde pequenas, mais conhecidas que amigas, mas ela sempre teve um sorriso sem tamanho e uma alegria contagiante de acreditar que tudo daria certo. Da 5ª a 8ª série, fomos da mesma sala. Algumas de nossas melhores amigas eram as mesmas (Isabel e Bárbara), mas nunca fomos muito próximas. Aliás, tivemos bem nossas desavenças no auge de nossos 11 anos, motivadas pelo fato de "gostarmos do mesmo menino da sala" (nós duas e outras seis ou sete meninas da sala, se é que vocês me entendem...).

Depois do colégio, nas voltas que o mundo dá, reencontrei a Júlia, que já era melhor amiga (dude, como elas reciprocamente se chamam), de uma outra amiga querida demais. E foi ai que redescobri a mulher que ela tinha se tornado, bonitona demais, como um patinho feio que vira cisne, cheia de sonhos, conquistas, projetos. Nessa época, foram intermináveis conversas na varanda de um apartamento, almoço na casa dela, consultórios psicológicos da amigas em busca de respostas para o amor que sonhávamos encontrar. Júlia é a rainha dos programas improváveis, de animar coisas inusitadas. Parque de diversões de shopping terça a tarde? Por que não?

Depois da formatura, a Júlia foi embora pra Alemanha, fazer especialização em direito e encontrar o amor da vida dela. E foi exatamente o que aconteceu.

Feliz, radiante e noiva, ela veio a Belo Horizonte em fevereiro (para o casamento da Isabel, de quem tanto falo), e voltou em maio, para o casamento de outra amiga (bonitona encalhada que se preze é madrinha de muitos casamentos antes do próprio) e para apresentar a família e a todas as amigas o noivo alemão. Depois de quinze dias por aqui, a Júlia marcou um fim de semana no Rio com as amigas mais próximas.

Do fim de semana cheio de alegrias e programas, as amigas a levaram ao aeroporto, para pegar o vôo que iria do Rio a Paris. Ela nem quis dar tchau:

- Ligo pra vocês amanhã - disse e entrou no taxi.
De repente, não mais que de repente, não temos mais notícias.

A esperança é forte, insistente e petulante.

A razão, às vezes, fura a barreira da esperança e nos faz pensar que as chances são remotas.
De repente, não mais que de repente, estamos a espera de um milagre.
É que, num mundo de tantos repentes, quem me garante que o milagre não acontece?

Essa é a Júlia, com o bonitão dela!

21 comentários:

Noivinha Fatinha disse...

Nossa vc conseguiu me emocionar, estou arrepiada!!!

Fé!!!

bjao

Jannie Abrita disse...

Com os olhos cheios d'água eu faço uma oração. Pra que Julia esteja bem, aqui ou do lado de lá.
Um abraço apertado à vc!

Ernani Netto disse...

Que triste!

Força para amigos e familiares!

E o soneto (amo sonetos!) é maravilhoso... e também entendo que diz que uma separação importa em um novo começo!

Bjaum

Line disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ana Paula disse...

A Júlia não era uma amiga minha apenas uma conhecida, colegas de colégio tb, mas estou arrasada e rezando muito para que ela esteja bem em qualquer lugar e para que os familiares e amigos tenham muita força.

Ana Paula Novaes

Ana Guimarães disse...

Triste, triste...
Sonhei com ela a noite toda...
Que coisa, né?

Petitinha disse...

ô bonitona,
força para você neste momento, para os amigos e a família dela também.
BJOKS.

Camila disse...

Ai ai ai nem acredito...é uma tristeza profunda

Carlinda Hellen disse...

Laura,
que momento dificil para postar alguma coisa.Apenas pedirei a
Deus para que conforte a familia e os amigos da Júlia.

Deus cuide da familia,das amigas e amigos da bonitona Julia!

Juliana Marotti disse...

Ai Laura...que tristeza!!!
Só posso desejar força...
pra vc... os amigos e familiares!

Beijos

Anônimo disse...

Todos os dias a gente está por aqui comentando as coisas legais, mas agora chegou aquele momento "da alegria e da tristeza" que o blog já criou com a gente, sabe? É difícil...
Mas força é fundamental nessa hora e acreditar que ela está num lugar bem melhor que o nosso.

Catiluva disse...

Lindo texto! Realmente foi muito triste o que aconteceu, não consigo imaginar a dor dos familiares e amigos. Uma amiga minha também tinha um amigo nesse avião e, quando soube do acidente, mandou uma mensagem a todos os amigos a dizer que gostava muito deles e que lamentava não ter dito mais vezes ao outro amigo o quanto o amava.
Sei que a esperança agora é quase nula, mas bem que poderia acontecer um milagre...

Katia disse...

Sinto muito pela sua amiga... E pelos amigos e amigas, filhos e pais, filhas e mães... Que desapareceram neste avião.

Ana Izaura disse...

Lindo texto! Linda homenagem!
Hoje parei para pensar sobre esse acidente e percebi em uma entrevista que todos estão como você, esperando por um milagre. Essa espera é uma forma de demonstrar o quanto Júlia é importante para você. Compreender os fatos isso só com o tempo, o importante é sempre relembrar os bons momentos vividos e claro sempre rezar. A fé independente da religião acalma os corações aflitos.

Será que sara disse...

Realmente eu sinto muito pela primeira vez entro no seu blog e vejo esse post triste e mt bem escrito...
Sei q sinto mt nunca foi consolo pra ninguém em momentos dificeis...
Mais eu sinto mt, ñ só por vc, por tdas as perdas desse mundo seja lá q nivel são as mesmas...

Deus é Pai, ele sempre sabe oq faz, mesmo q isso nos cause dor, ele sempre sabe oq faz...
Um grande beijo

Anita

Samy e Ton disse...

Que a esperança se instale permanentemente nos coração de todos... mas que com o tempo ela possa virar amor...
E que de repente, não mais que de repente possa se transformar naquele amor profundo e puro, no qual apesar da saudades e da dor temos a certeza de aqui é somente uma parada, e que eles que se foram, agora sim, são realmente felizes.
Um Abraço...
E Que DEUS ilumine vc e todos a sua volta!

Samantha

Anônimo disse...

Não conhecia a Julia.. Apenas aquela sensação de que quem mora em BH sabe.. o rosto conhecido, familiar.
Sabemos que a vida pode mudar em 5 min, mas a verdade é que não temos a real consciência disso.
Quando acontece algo dessa proporção com uma pessoa distante, mas tão perto ao mesmo tempo, mexe muito..
Impossível não pensar nos planos desfeitos, na carreira interrompida, na dor, no amor..
Nessa inseguraça da vida, nessa incerteza que vivemos, só nos cabe a rezar.. Que Deus nos proteja! Que Deus proteja todos nós!

Mariana disse...

Laura, acompanho seu blog, e quando tive a notícia sobre a Júlia pensei em postar um comentário para te informar, pq sabia que vc melhor que ninguém escreveria uma linda homenagem para ela. Lembro de seu discurso qdo nos formamos no Loyola e acompanhando seu blog vejo que vc sempre consegue nos surpreender com as suas palavras. Parabés pelo livro, pelo noivado, mas principalmente, queria agradecer em nome da família Chaves, pela linda mensagem que vc escreveu sobre a Júlia. Já repassei para a família.
Mariana.

Monica disse...

Laura,
muito muito lindo o seu texto sobre a Júlia. Acho que não tem como resumir essa bonitona de outra forma. Como voce mesma diz:"Num mundo de tantos de repentes, quem me garante que o milagre não acontece?".
Estamos a espera. Parabéns pelo blog e pelo livro, as bonitonas da família Furtado Pinheiro Chagas adoraram!!!
beijos

Anônimo disse...

Laura, como sempre vc conseguiu falar da Júlia com primor. Ela era muito, muito querida, inusitada, enchia uma sala de alegria e entusiasmo. Uma cidadã do mundo!, como o Marcelo um dia a apelidou e como sempre ele a chamava.
Foi um verdadeiro cometa que passou por nós. Quem não viu, perdeu!

bj mto grande

Cristina

CISSA disse...

Querida Laura,

Muitas me foram as surpresas que tive, semana passada, ao retornar de uma viagem que fiz. A primeira, que me deixou felicíssima, foi a notícia de seu casamento! Me lembrei o dia em que te encontrei, há uns bons 2 anos atrás, eu indo para o Praetorium e vc indo trabalhar (estava fundando o setor jurídico de uma empresa), qdo entaum brincamos acerca desse futuro (hj já presente) casório. Meu Deus, como o tempo passou! Fiquei muito satisfeita por ambos os noivos, já que pude (con)viver boa parte da minha vida com vcs no colégio, e ainda um pouquinho mais na faculdade. A outra maravilhosa notícia foi a da publicação do seu livro e da existência desse blog bonitérrimo! Quantas alegrias Laurinha! Qto sucesso!
A notícia triste ficou por conta do terrível acontecimento com a nossa colega Júlia, que tanto me chocou e ainda hj ronda meus pensamentos... Que baque! Tenho rezado para que ela esteja passando por essa fase com o mesmo brilho nos olhos e sorriso largo de que tanto me lembro, por mais estranho que isso possa parecer, essa é a minha crença e prefiro conservar isso em mim, o que naum é tarefa fácil!
Laurinha, que Deus te proteja ( e à Júlia) e te ilumine nessa nova etapa de vida que se inicia!
Beijos muito carinhosos pra vc e pro Henrique!!!

Cissa.