domingo, 23 de maio de 2010

Perdoada

Hoje eu acordei, olhei pra mim no espelho e pensei em muitas coisas minhas que não são exatamente como eu gostaria.

Lembrei de um texto, sobre o qual eu até já falei aqui no blog, que chama "Perdoando Deus", da Clarice Lispector. É um texto que eu visito às vezes, como se fosse um amigo de muito tempo, um amigo que não vejo sempre, mas que, como os amigos de muito tempo que não encontro sempre, toda vez que a gente se encontra, parece que estivemos juntos ontem e me proporciona momentos ótimos. Me faz pensar, rir e sair da visita mais leve.

Lembrei que o texto fala sobre a gente ser capaz de amar o mundo (e as coisas do mundo), e amar um amor grande, que abrange a vida, e se sentir livre, por amar tudo, assim... Bem, pra quem não entendeu lhufas do que estou falando, é melhor procurar o texto original.

Mas, o que importou, para mim, hoje, foi lembrar que a Clarice estava lá, amando o mar, o sol, a brisa, e, de repente, pisou num rato, e ficou enojada, mas, depois, concluiu, para amar o mundo, ela tinha que amar o rato também. Ela não podia escolher amar só as coisas boas do mundo. O amor dela tinha que ser maior e englobar as coisas amáveis e as coisas nem tão amáveis assim. Então, ela perdoa Deus por ter posto o rato no meio do caminho dela. Ela, na cabeça dela, perdoa Deus.

E hoje, olhando pra mim, olhando pro espelho, eu vi um monte de coisas que eu não gostaria. Vi coisas que já pensei, que fiz, que achei errado, mesmo quando, na época, me pareceram certas. Vi coisas que julguei sem saber direito, vi coisas que falei. Vi coisas mais vísiveis também. Quilos que ganhei, uma ou duas ruguinhas que começam a tomar forma, celulites que adquiri com anos de muito sorvete e coca-cola. E eu me culpei, porque mulheres do mundo moderno tem essa coisa, né? A gente se culpa, culpa, culpa, culpa. Culpa pelo tempo que não tem, culpa pelo tempo que tem de sobra, culpa porque não vai a ginástica, culpa porque passa horas na academia quando poderia estar estudando francês/inglês e chinês (afinal, chinês é a língua mais falada do mundo. Ou não?)

Depois de todas essas acusações, e de meu olhar que confessava a minha culpa, eu olhei pra mim de novo.

Olhei. Pensei.

Pensei que eu tenho que me amar primeiro, se eu quero que alguém me ame. Pensei que eu errei sempre tentando acertar e, por mais que de boas intenções o inferno esteja cheio, eu sou uma pessoa também de ações, que eu errei agindo, em vez de ficar parada esperando o tempo resolver. Que eu errei tentando. Que eu não me acomodei, nunca. Pensei que eu acreditei, desde sempre, nos sonhos (nos meus e nos dos outros) e que eu sempre ousei sonhar. Mesmo os sonhos bestas, que hoje me pareceriam pesadelos.

E pensei que, para que os outros me amem, eu tenho que me amar primeiro.

E ai, depois de tanto pensar, eu entendi: para me amar, eu não posso escolher amar só as coisas boas. Eu tenho que me amar inteira. As coisas boas e as ruins. O que não significa que eu não possa, que eu não deva, tentar melhorar. Mas eu não vou ser perfeita nunca. O mundo não é perfeito, nenhuma pessoa é. Mas eu vou melhorando, aqui e ali, e, enquanto isso, eu tenho que me amar: meus erros e meus acertos. Como tantas vezes amei os outros, sabendo os defeitos deles, e aceitando o pacote completo. É assim que tem que ser pra mim também.

E, hoje, de frente pro espelho, eu me perdoei.






11 comentários:

Cidinha Fontes disse...

Querida , cada vez que algo que julgo legal me acontece visito seu blog. Me inspira !!!! Um beijão

Barbara disse...

É isso aí!
A gente tem que se amar por inteiro, porque a gente é linda mesmo!!
... e (tentar) não sermos tão duras com nós mesmas!

Petitinha disse...

Oi Laura,
sabe que justamente hoje recebi um e-mail de uma amiga com um texto inpirado no livro Quando me Amei de Verdade da Kim McMillen, são pensamentos simples e poderosos que nos mostram uma forma muito bonita e leve de ver a vida e a nós mesmos. Venho aqui e encontro esse seu texto maravilhoso, deve ser algum bom sinal.
Boa semana a você.
BJOKS.

Paula Valias disse...

Tudo que eu precisava ter lido hoje!
Laura, você é musa!

Beijos

Ana disse...

Te amo!

PERPLEXIDADE disse...

Adorei! :)

L@N disse...

Adorei seu blog.... uma semana iluminada pra ti beijos

Ellen disse...

ai suspiros....
sim amar tudo incondicionalmente deveria ser nossa tarefa diária....mas como é díficil...e aqueles dias (como hj por ex.) q vc está prestes q ficar "naqueles dias" que pensa q o mundo às vezes é injusto com vc e com quem vc ama....nao é fácil, mas para isto temos blogs como o seu...para nos aminar e nos motivar a "admirar" a vida como ela é, com coisas boas e outras "nao tao boas assim" beijokas linda

Juscelia Martins disse...

Que lindo!!! Post verdadeiro... parei pra pensar sobre o assunto...
Vou refletir a respeito...
Lindo blog...
Bjns
Juscelia

Julie disse...

Também sempre volto neste conto de Carice Lispector! Desde a época do Vestibular, em que meu primeiro contato com Clarice fora por obrigação, o conto "Perdoando Deus" me marcou. Muito bom seu post Laura! Temos que nos perdoar (ou parar de nos culpar?)e nos amar por completo!

Virgínia disse...

Obrigada por esse texto. Muito, muito obrigada. É a primeira vez que visito o blog e estou voltando os posts, e encontrar essa pérola é uma coisa marcante.