quinta-feira, 6 de maio de 2010

Teoria da aula de inglês

Ahá! Acharam que iam ficar livres das minhas teorias? Mas não contavam com minha astúcia...

O negócio é o seguinte, bonitonas: depois que comecei a dar aulas de português para escoceses, fiquei observando mil coisas nos alunos e mirabolando teorias mirabolantes, que apresento a seguir. O nome ideal do post seria "Teoria da Aula de Português para Escoceses", mas acho que ficou melhor assim, porque acho (humildemente) que esta teoria é meio universal e se aplica a qualquer pessoa que esteja aprendendo uma segunda (ou terceira, quarta... sétima língua).

Começar a dar aulas de português para quem só fala inglês foi um desafio. Precisei cavucar as minhas lembranças e lembrar de como eram minhas primeiras aulas de inglês, quando eu não tinha noção de nada. Com uma diferença: eu tinha 11 anos (na 5a série do colégio) e todo o tempo do mundo pela frente. Além disso, eu queria aprender inglês pelos motivos mais legais do planeta (ou seja, saber cantar as músicas que tocavam na 98 e na Jovem Pan e falar em inglês com as minhas amigas). Mesmo o sonho de conhecer a Disney só estava previsto para os 15 anos, ou seja: eu tinha tempo de curtir cada coisa nova.

Quando entrei no cursinho de inglês, calhou de eu ser da sala de uma menina que era da minha sala do colégio (mas que, antes do inglês, não era tão minha amiga assim). E nós duas, gostando muito da aula, nos aproximamos, e conversamos, conversamos, conversamos...MUITO. A gente morava perto e saíamos da aula as 9:30 da manhã, andávamos até a calçada da casa dela e sentavámos nuns degraus para conversar tudo (assuntos inesgotáveis da tarde anterior em que, obviamente, tínhamos vivido no colégio) e ficávamos lá, "gastando nosso inglês". Claro que, esporadicamente, praticávamos nossa língua secreta em bilhetinhos com segredos inconfessáveis (do tipo: qual o menino da sala você acha mais bonito) e outros assuntos altamente sigilosos. Assim, surgiu a Bárbara, que é minha amiga vip(madrinha de casamento e tudo) até hoje. Momento Freud explica: Bárbara, entre outras coisas, é professora de inglês.

Bom, o fato é que, quando a gente aprende inglês na adolescência, na infância, a gente vive cada aula de uma vez. Ri. Conversa. Adooooora quando tem música. Até canta a música!!!

A gente aprende o presente simples. O verbo to be. Eu sou. Você é. Depois, aprende o presente contínuo. Eu estou sentindo. E, só depois, começa a pensar em futuro próximo (near future). Eu estou indo.... O passado e o futuro, afe, são questões avançadíssimas e despreocupantes. Quando surgir, tá ótimo, mas, no inglês da adolescência, a gente fala mesmo é do presente.

Agora, no português par estrangeiros que já passaram dos trinta, a coisa é completamente diferente. Primeiro porque eles não QUEREM exatamente aprender, mas eles PRECISAM aprender. E ai, já viu, né? Começamos a primeira aula com verbo ser/estar e eles já querem uma planilha de todos os conteúdos. Na segunda aula, surge a pergunta sobre o passado, as conjunções e, lá pela quarta, quinta aulas, esteja certo, virá uma leve alfinetada: precisamos saber falar o futuro também, viu, professora?

Do mesmo jeito, eu acho, funcionam os relacionamentos. Quando a gente conhece as pessoa na adolescência, e por pessoas eu digo, pretendentes, pretendidos, a gente conversa. Ri. Vai no cinema com uma turma enooooooorme. No Pizza Hut. Nas festas de 15 anos. A gente fala do presente: eu sou, você é. Fala do presente contínuo: estou começando a gostar de você...depois, de alguns meses, pode acontecer de falarmos no futuro próximo: eu estou indo na festa da fulana sábado, você quer (no presente) ir também?

A gente dá tempo de cada tempo verbal aparecer, e vai se divertindo com os aprendizados e com as descobertas de cada etapa.

Agora, quando a gente passa dos 20 (dos 25 talvez???) a coisa muda de figura. A gente conhece um bonitão e, no primeiro dia, já quer falar do presente, do presente contínuo e do futuro próximo (o que você vai fazer amanhã/semana que vem/ domingo a tarde?).

Antes mesmo da segunda aula, ops, do segundo encontro, a gente já dá uma adiantada no passado, liga pras amigas, levanta as "ex", entende os casos que deram certo, planilha os prós e os contras. E, claro, lá pela quinta saída, a gente quer saber o futuro.

Com isso, meus alunos adultos perdem muito. Eles não conseguem captar o traquejo da língua. Eles sabem todas as conjugações, mas não tem tempo de entender o ritmo, a sonoridade, captar a diferença entre tomar café e beber café. Porque dizer que você não tomou café é completamente diferente de não ter bebido café. E porque também xarope a gente toma, e vinho a gente bebe. Mas sim, podemos tomar cerveja.

Conhecer uma língua nova, precisa de tempo. Não tem como ser instantâneo e eu não posso prometer fluência em 20 aulas. Do mesmo jeito que um novo relacionamento pode ter quase tudo em 20 encontros: você sabe que o beijo é bom, que ele é mal resolvido com a ex, que a mãe é possessiva e que, em 2 anos, ele pretende ser gerente da multinacional onde trabalha. Mas, infelizmente, você não vai saber qual é a expressão que ele faz quando a conversa está entediante, onde ele sente mais cosquinha e qual é a camisa que ele usa nas reniões realmente importantes. 

Assim como uma língua, a gente aprende as pessoas. Mas:  leva muito, muito tempo. E é um aprendizado que não acaba nunca. 


PS: Só uma coisa. Aprender inglês, para nós, é muito mais fácil do que aprender português para meus alunos. Nascemos ouvindo inglês. Músicas, filmes. Lendo pequenas palavras em inglês em todos os rótulos. A gente não percebe, mas já vai "sacando" inglês desde sempre, nem que seja um "I love you, baby". Por aqui, português não existe. Vocês não acreditam minha dificuldade pra conseguir material didático. É Pelé, Santos, Brasil, e olhe lá. Mais ou menos como seria aprendermos grego. Ou russo. Um pouco mais fácil, porque pelo menos nosso alfabeto é o mesmo.

10 comentários:

misha disse...

laura,
lindo texto! sou uma pessoa de detalhes... de nuances. por isso talvez tenha gostado tanto da analogia!
michelle

Cíntia Mara disse...

Adoro suas teorias, Laura!

(Peguei seu livro pra ler hoje de manhã e quase que não consigo parar. Adorei!)

Bjs

Barbara disse...

Laura,
Que honra ver meu nome no Blog!!
Adorei mesmo, fiquei até emocionada...
Um beijo da sua amiga vip!! (yay)

Izabella Pimenta disse...

Laura, estava com saudades!!!
Pra variar, suas teorias são o M Á X I M O!!!
Abraços de uma Bonitona nem tão Encalhada Izabella Pimenta
PS. Meu irmão mandou um abraço, acho que ele estudou com vc (Daniel Pimenta, ou Joselito... rsrsrsrs)

Anônimo disse...

Oi, bonitinha,
ainda bem que vc voltou e, o que é mais importante, com a corda toda,
com páginas super interessantes, inteligentes e tb um pouco filosóficas. Já abro o seu blog sabendo que vc está lá, nos divertindo de uma maneira que vc sabe fazer tão bem!
Beijos!!!!!

Ana Carolina disse...

Laura, comecei acompanhar seu blog agora e estou adorando! Adorei essa teoria...vc manda muito bem!

Um beijo de sua nova fã, Carol.

Évelyn disse...

oiii Laura ...realmente é bem assim...sou professora de Português e Inglês para crianças do 1º ao 5º ano e o que facilita mto de fato é o contato que temos diariamente com a língua, através de músicas, filmes, nomes de lojas enfim td acaba fazendo parte do dia a dia deles. Imagino que esteja sendo um trabalho bem complicado tentar ensinar nossa complexa gramática e todos os modos de conjugação, concordâncias que nossa língua exige...ah, sem esquecer do complexo mundo feminino e masculino rsrsrs...eu tinha uma professora de inglês que mandava a gente escrever cartas sabe, trocar entre os alunos da sala sobre um tema específico, para treinarmos o vocabulário aprendido, ou ainda trabalhar texto com perguntas e respostas onde todos os tempos verbais se encontrem...pode ser que ajude eles a treinarem os conteúdos que vc tenha passado....caso precise de algum conteúdo mais específico em português para passar aos seus alunos, é só pedir!!!
Bjussssss

Caroline® disse...

Adoro suas teorias, Laura!²

Começam meio estranhas, mas fazem todo o sentido do mundo. Vou tentar aprender um tempo verbal de cada vez - no inglês e nas pessoas...

Júlia disse...

Suas teorias são sempre muitooo boas! Vc tem toda razão! A pressa nos faz deixar muitas coisas passarem despercebidas...
Beijos!

ninho jardim de infância disse...

Ei Laurinha,
Lembrei dos meus aluninhos...
Eles dizem assim de vez enquanto: - Professora vc sabe aquele dia antes de amanha? (ontem)
Eles ainda tem uma curta memória do passado e quase nenhuma expectativa do futuro. Vivem no presente.
Viver assim é um grande desafio, principalmente para nós mulheres.... Rs
bjs Bia