domingo, 2 de novembro de 2008

Sob controle

Não sei por que algumas mulheres (bonitonas, em grande parte) encalham e outras não.
Principalmente, não sei bem por que eu estou encalhada. Acho que fiz tudo certo, tudo do jeito que tinha que fazer. O mundo é injusto. E, felizmente, ainda bem que a injustiça contra mim cometida foi apenas o encalhamento. Aliás, o encalhamento e o culote. Podia ser bem pior.
Eu poderia estar passando fome, vivendo num país em guerra, ter vivenciado uma catástrofe natural (terremotos, vulcões, furacões, tsunâmis). Eu poderia ter que assistir Marcia Goldsmith 24 horas por dia. É até muito light ser só encalhada.
Porém, mesmo sabendo de tudo isso, às vezes ainda penso: onde foi que eu errei?
A gente tem essa mania.
Mania de achar a culpa do mundo a partir do que somos. Aí você (eu), simplesmente, desconsidera o universo - que desde sempre funciona sem você (eu) - e começa a querer controlar tudo. Controlando tudo (como você - e eu - achamos que fazemos), a culpa de alguma coisa sair errado vai ser só sua. A gente desconsidera os anseios, espaços, vontades e sonhos do outro.
O problema todo é que a culpa não é sua, nem minha, nem nossa. Infelizmente, nem deles (entendendo-se por "eles" todos os homens do mundo que poderiam nos desencalhar).
Não há culpa.
Não foi por que você não saiu naquela sexta a noite em que encontraria fatalmente o amor da sua vida. Não foi por que escolheu vestido vermelho curto em vez do verde longo. Não foi porque não respondeu ao email daquele colega de faculdade ou porque estava no banho quando tocou o telefone de um número não conhecido que podia ser aquele paquera mais interessante que sumiu.
Não é porque até hoje você não sabe cozinhar. Aposto que muita gente que não sabe está casada, e muita chef de restaurante 5 estrelas está cozinhando pratos individuais.
Há sonhos.
Há expectativas.
Há ansiedades.
Há pressões (e depressões, por elas causadas).
Sonhos que não são só seus (são da sua mãe, da sua avó, das suas amigas...).
Expectativas de que os sonhos se realizem.
Ansiedades que demandam quilos e quilos de chocolate e noites mal dormidas.
Pressões que são veladas: e ai, Laurinha, esse noivado sai ou não sai? Nossa, você sabia que Fulana vai casar? E ela só tem dois anos de namoro. Há quanto tempo você namora mesmo?
Pressões que são explícitas: você não tem medo de ser difícil engravidar depois?
Mas, se você entende que a culpa de não ter sido a vencedora da mega-sena no último sorteio não é sua, você tem a capacidade de entender que não é por nada que você fez (fiz) ou deixou (deixei) de fazer que está(estou) encalhada. É claro que você tem que fazer sua parte. Pelo menos, jogo na loteria, tento me cuidar, ser cada vez mais bonitona enfim, o que está no meu alcance. Mais que isso, agora quero viver esse finzinho de encalhamento (não é possível que eu vá ficar mais 26 anos encalhada, espero) com tudo o que ele tem de melhor!
Eu já vivo uma vida de grandes amores: amor de pai, de mãe de irmã, de amigas. Amor de vô, de vó, de tias. Amor de namorado.
Casar, hoje, não depende de mim. Depende de uma infinidade de fatores que não estão sob o meu controle.
Foi o só o universo que não conspirou a meu favor. Ainda.

2 comentários:

Anônimo disse...

Alguém que me entende perfeitamente. Que colocou num texto tudo o que estava engasgado até agora e não tinha coragem de dizer. Parabéns! Sou sua fã! Por que isso tem que acontecer com a gente? Logo com a gente, né? Vai saber...

simeia disse...

Laura eu pensava que só eu pensava nesse tipo de coisa, sempre que leio seu blog me sinto confortada em saber que existe mais alguma bonitona nomundo com sonhos parecidos que os meus e que não se envergonha disso, é como se eu não estivesse sozinha na luta! Parabéns pelo seu casamento em breve e por favor não deixe essas encalhadas que ainda estão na luta abandonadas!