quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Tesoura do desejo




Não sei porque cargas d'água, toda mulher, pelo menos uma vez na vida, surta e decide: vou cortar o cabelo. E se tem uma coisa nesse mundo que mexe com a sanidade das mulheres, é o cabelo.



Tenho observado que recém-casadas tem uma forte tendência a esse tipo de mudança. Não sei se é o alívio por PODER cortar o cabelo, já que antes de casar esse ato é terminantemente proibido (porque o cabelo tem que estar grande para poder fazer penteado), ou se é para a pessoa sentir que alguma coisa, de fato, mudou na vida.


Não descarto a hipótese de ser uma promessa (se eu casar, corto o cabelo assim que voltar da lua-de-mel).


Enfim, noiva é bem diferente de esposa e lá vai ela exibindo a cabeleira de "deixei de ser senhorita e agora sou jovem senhora".




Entretanto, independentemente do encalhamento ou desencalhamento (também chamado casório), toda mulher já fez uma loucura dessas. Geralmente, essa decisão se revela em pensamentos do seguinte modelo: "hum, tô precisando "dar uma mudada!"", ou "não estou aguentando essa cara de sempre", ou ainda, "nossa, quero o cabelo da Katie Holmes".


E lá vai ela (e lá fui eu), num momento de baixa auto-estima, fazer o que ninguém recomenda: uma mudança radical. Porque, nesses casos, você não sabe exatamente o que quer e deixa que o cabeleleiro realize as fantasias capilares (dele, excêntrico que é) na sua cabeça! Simplesmente, sem pensar em nada, você dá um cheque em branco e diz, inocente: me deixa linda!



Uma mini digressão, cabível nesse momento, é a seguinte: pensar que cabelo de celebridade em novela é uma coisa possível na vida real é o maior equívoco que você pode cometer. Cabelo de novela (filme ou minissérie) dá um trabalho danado, ninguém acorda com aquele cabelo. Conheço pessoas reais cuja cabeleira é tão indomável que cada tufo acorda de um jeito...


Voltando ao tema, eu, bonitona encalhada, sempre em minhas montanhas russas emocionais, não fujo a regra. Se até a Juliana Paes que, obviamente, é a Juliana Paes, já surtou e cortou, por conta própria, uma franjinha (li na Contigo!), quem seria eu para nunca ter feito o mesmo? Pois bem.


Já tive surtos pesados na adolescência, de sair de casa loira de cabelão e chegar morena com o cabelo curtinho e desfiado, que nem a Valery de "Barrados no Baile". Passei uma semana assustando toda vez que acordava e ia me olhar no espelho. Juro. Não me reconhecia, sonhava comigo de outro jeito. Enfim, foram-se os anos, o cabelo cresceu e clareou. Graças a Deus.


Meu surto mais recente começou com uma franja que minha mãe me ajudou a executar.



Preciso confessar, fiquei num visual duvidoso, alguma coisa entre paquita da Xuxa e yorkshire (mas mais para yorkshire). Minha franja espetou pra frente, ficava meio flutuando paralelamente ao meu rosto, como se fosse uma viseirinha. Bem yorkshire mesmo:De fato, o problema da franja é que, além de demorar a crescer e poder ser presa com o restante do cabelo ou atrás das orelhas, ela incomoda para atos da via em geral, tais como enxergar, escrever, ler, conversar, fazer ginástica e dirigir (imaginem, eu já sou uma ameba ao volante).


Além disso, ou você passa a mão na franja toda hora, ensebando-a rapidamente ou você faz como os yorkshires e resolve o problema com tic-tacs e presilhinhas (que são mais charmosas nos caninos que em mim):





Superado o problema inicial da franja, ela cresceu, eu esqueci o trauma, e, de novo, surtei que queria um cabelo curto, meio na nuca, e lá fui, com meu cabelão.




O cabeleleiro, muito sensível, entendeu que não devia ser radical e foi cortando aos poucos. Ele tirava dois dedos (de cabeleleiro...como vocês sabem, em dedos normais seriam uns 4) e eu lá, empolgada: mais, mais, mais!!!



Obviamente, sai do salão me achando linda (todos os profissionais presentes garantiram que eu estava mesmo). Mas foi só começar a encontrar pessoas conhecidas que as reações eram:

-Nooooossa, que mudança tão radical!

- Nooosa, que coragem!


-Nossa, você ficou tão...diferente!

- Nossa, que moderno!


Vamos combinar que radical, corajosa, moderno e diferente são sinônimos claros de "não ficou bom". Fora as pessoas que eram mais sinceras:


- Por que você fez isso?


Nada pode ser mais deprimente que essa pergunta. Ela pode ser traduzida como "por que você fez essa idiotice? ou, ainda, como "por que você decidiu ficar mais feia"? Massacrante, também, é a variável: "é bom que cabelo cresce, né?" Ou, pior ainda: "nossa, nem te reconheci". Aliás, pior de tudo é quando a pessoa, sem saber como reagir, finge que não notou.


Aí, sinceramente, dá vontade de enfiar para sempre um saco de papelão na cabeça. Inclusive, achei uns sacos próprios para essas ocasiões:



Se ninguém te contou a verdade ainda, eu conto: quando você muda alguma coisa, e fica melhor, os comentários são: "nossa, você ficou linda!", "Muito melhor assim!", "Gente, o que você estava fazendo com aquele cabelo todo?"

Toda mulher sente quando as pessoas estão sendo apenas educadas. De confiança mesmo, nessas hipóteses, só a mãe. E a minha foi incisiva:


- Vou rezar pra você porque tenho certeza que pra fazer uma coisa dessas tem alguém com muita inveja do seu cabelo por ai.


Acrescentando, horrorizada:


- E pior é que estamos bem no meio da lua minguante! Vai demorar muito pra crescer!


Além dos comentários depreciativos, você ainda tem que lidar com a ressaca do cabelo. Explico. Depois de um dia mega arrumado de salão, o cabelo acorda de ressaca, com aquela cara de "preciso de salão de novo!", mais ou menos a mesma cara de quem acorda depois de um mega casamento. E ai, amiga, é você quem vai ter que lidar com o mal humor dele, com todas as variáveis, cada mecha sofrida, ajeitar com amor.


O meu cabelo, pelo menos, é super sentimental. Fica ressentido por ter sido cortado. Se o cabeleleiro fala que vai dar uma desfiadinha, meu cabelo sussura diretamente no meu cerébro, vingativo: desfiadinha? ah, tá! Amanhã estarei exibindo cada golpe que sofri com essa navalha!

E acorda parecendo que foi picado com uma tesoura de podar jardim, tipo Edward Mãos de Tesoura.



Voltando ao meu drama, já estava arrasada, tristinha, investindo rios de dinheiro em passadores e elásticos, considerando a hipótese de um aplique, um mega hair, qualquer coisa cara e trabalhosa, quando um colega de trabalho, por acaso, sugeriu:


- Laurinha, essa revolução toda foi da tesoura do desejo?
E eu, ignorante e encucada:
- Hein?
- Tesoura do desejo, a música, ué! - e saiu.

Fui pesquisar no Google e descobri a música, que, de verdade, traduziu meu corte de cabelo. É uma música do Alceu Valença que fala do reencontro de dois ex-apaixonados. A versão que ouvi é cantada pelo Geraldo Azevedo e pela Elba Ramalho.

Pelo que entendi, o moço marca um encontro com uma antiga paixão, e fica esperando por ela, num bar do Leblon. Quando eles se reencontram, ela está com os cabelos diferentes, e ele fica vendo que ela mudou, que o tempo deles passou, que ela não pertence mais a ele.

E ele pergunta: o que que houve, meu amor, você cortou os seus cabelos? E ela responde: foi a tesoura do desejo...desejo mesmo de mudar!

A partir daí, adotei a resposta (adoro adotar frases dos outros). O que eu fiz com meu cabelo?

Não fui eu. Foi a tesoura do desejo. Desejo MESMO de mudar.

11 comentários:

carolinesantana disse...

O mais estranho é que o corte ficou lindo mesmo. Acho que as pessoas têm um apego pelos cabelos dos outros, um ciúme do cabelo alheio. Creio que acontece com pessoas que ou não tem um cabelo útil pra fazer as mudanças que quiserem (tipo um cabelo que não cresce), ou são covardes demais pra mudar e ficam com inveja da coragem dos outros....

Have sugar disse...

Só você mesmo pra transformar esse fato em uma teoria! Mto bom!

Catiluva disse...

Como sempre, excelente texto! Eu quando tinha uns 15 anos tinha o cabelo beeeemmmmm grandão, toda a gente mexia, dizia que era lindo, etc etc...mas sei lá o que me deu, um dia olhei e pensei "chega, não aguento mais a mesma cara, vou mudar". E mudei! A reacção das pessoas não podia ter sido pior..."não, porque fizeste isso?", "era tão lindo", "estás tão diferente"...mas eu não quis nem saber...senti a necessidade de mudar urgentemente e mudei, pronto! Acho que vou adoptar essa frase tambem...bj

Zelma disse...

Entendo prfeitamente o seu drama.Quando era jovem,pois por incrível que pareça já fui jovem um dia,cansada de ouvir q. parecia uma índia fiz uma permanente.

Foi uma autêntica tragédia!!!

Nat disse...

Adorei o post, Laura.
Tenho um caso de amor e ódio com meu cabelo. Quando era pequena, ele sempre foi enorme, de bater na cintura, de cachos leves e fios finos, de um louro claro maravilhoso. E assim foi até a adolescência. Com a adolescência, tudo complica, não é?! E, pior, o enrolado já tinha saído de moda desde a época da minha mãe e quem reinava era o liso-lisérrimo. Não deu outra. Como nunca estamos contentes com o que temos, cismei de transformar meus lindos cachinhos em madeixas alongadas e planas. Mas com a adolescência vem a rebeldia - e não só na atitude, mas na cara, no cabelo e na barriga. Os meus cachos tinham se tornado mais... cacheados. Não teve um progressiva ou relaxamento que surtisse efeito. Não satisfeita com todos os procedimentos, parti pra outra. Resolvi pintar aquele dourado lindo de um castanho chocolate. Não ficou feio (até combinava com o azulão do meu olho). Mas parece que eu, a "eu" de verdade, tinha sumido. Minha mãe não acreditava. "MEU DEUS, COMO VOCÊ PINTA O SEU CABELO? A COR DELE ERA MARAVILHOSA". 'Mãe, porque eu quis'. Ela foi bem compreensiva e nem reclamou. Mas era minha mãe, né. E aí fui pra escola. "Nossa, Nati, seu cabelo ficou lindo". Sorriso. Depois de 17 pessoas falando o mesmo, comecei a desconfiar. De muitas uma. Ou eles estavam estranhando. Ou realmente não tinha ficado bom. Ou tinha cagado total no cabelo. Depois, é claro, me arrependi. Mas nem foi tanto assim. O que mais me arrependi foi do estrago das escovas. Hoje, ostento orgulhosamente meus cachinhos - que se refizeram e estão lindos - e o meu dourado - que por incrível que pareça, voltou! Mas tenho certeza que se não tivesse feito tudo o que fiz nele até hoje, não estaria contente com ele assim, ao natural. E é isso que muita gente não entende. Temos que mudar pra ver o que é o diferente e ver com o que nos adaptamos melhor. Afinal, com o cabelo, sempre temos uma certeza - ele cresce! ;)

Camila disse...

Laura, eu adorei seu cabelo novo! Achei que mostrou mais seu rosto, e ficou muito mais moderno!
Quando tinha 16 anos, cortei meu cabelo igual de homem, sabe? não parava nem tic-tav, não tinha nem aquela franja da Katie Holmes. Eu amei!!! O ruim é que enjoa com o tempo, mas se demorasse uns 6 meses pra crescer, eu cortaria sempre =D
Agora estou querendo deixar ele chegar na bunda, pq nunca tive cabelããão, e adoro me ver diferente! Você ficou mais linda.
beijos!!

Z. disse...

Olha... Eu tenho que concordar com os comentários aqui... E olha que sou uma Rapousa Loura e Felpuda e antenadíssima em moda e beleza. O corte ficou ótimo! Te rejuveneceu... Aquele look cabelão pesadão não tá com nada, meu bem! Tu ficaste muito bem mesmo! O que eu acredito que sentiste e isso se retrata no texto é que quando decidimos mudar, usamos a mudança externa como uma alavanca, como um estímulo, quando na verdade a única mudança que nos importa é a interna. Então, a gente acaba frustrada pq aquela mudança externa não produziu os efeitos desejados... Mas quer saber?!?! O lado externo está ótimo! O cabelo ficou lindo! Com isso, realmente, não deves te preocupar... E digo o mesmo do lado interno, pq se nos presenteia com textos tão bons, é pq as coisas andam bem por aí tb... Aflições mentais todos temos... Só temos que atentar para quando deixar a tesoura do desejo atuar...

Bjsss felpudos

Barbara disse...

É só falar de cabelo que chove post hein?
Olha, sua primeira mudança radical, de loira pra morena na época do colégio e aula de inglês foi meio traumática mesmo. Não acho que ficou feio, mas ficou muito diferente do que vc era antes. O oposto, na verdade. Muito mais do que uma menina de 15 anos aguenta.
Mas a mudança atual nem foi tão dramática assim e ficou lindo mesmo! Quem fez esses comentários idiotas ta com inveja e deve ter pensado: "Nossa, mesmo curto ficou lindo, que óóódio desse cabelo maravilhoso que fica bom de qualquer jeito!"
Aliás, é uma coisa que sempre reparo qdo a gente se encontra. Seu cabelo ta sempre lindo!! Acho que o corte deu um movimento muito legal!
Deus abençoe suas madeixas!

Ju Marotti disse...

Ai nem me fale...

Qdo eu era mais nova, minha mãe cortou minha franja... mencionei que eu tenho cabelo enrolado?

ahahahahahahahaahahahahahaa


Bjos
Ju - Pink Venus

Vanessa Pontes disse...

ADOREI!!!!
Gostei muito mesmo.
Eu casei esse ano, logo depois cortei o cabelo.
Tipo sua mudanca, tinha um cabelao e cortei bem curtinho.
Nunca tinha parado pra pensar em quem corta o cabelo depois de casar.
Acho que eh mais pra falta de medo.
Como voce mesma falou cabelo mexe com a sanidade da gente mesmo.
Depois de casar deu aquela sensacao de mudanca.
Mas explicacao do seu corte foi melhor, a tesoura do desejo!!!
Beijo
Vanessa

dani bottrel disse...

... aconteceu o mesmo comigo,,, hj tenho um "mega de plantão" na hora q dá aquela vontade de enfiar a cabeça dentro de um saco,,, corro pro salão e da-lhe mega hair...mas descobri q meu problema n é cabelo,,, fico neurada qdo estou acima do peso,,, como n dá pra sair por aí cortando "certas" partes do corpo,,, eu corto o cabelo!!!!!