quarta-feira, 8 de outubro de 2008

O pregão da bolsa


Já que a bolsa está uma loucura essa semana (e não a bolsa da Louis Vuitton, que é sempre uma loucura, mas a bolsa de valores), resolvi desenterrar um caso.

Naquele tempo (porque o affair é bem antigo, quase bíblico), eu estava meio traumatizada com os cabeças vazia que encontrei pelo caminho, e me interessei por um playboyzinho, mauricinho, engomadinho. Bonitinho e cheirosinho, claro.

O meu paquerado era engenheiro, mas bem que podia ser advogado, administrador, economista, consultor ou alguma outra coisa desse ramo de negócios numéricos e burocráticos e bem-sucedidos, ou seja, pertence a primeira categoria de profissionais a ser analisada.

Então, estava eu solteira (leia-se, sem namorado), pela primeira vez em muitos anos, e eis que me surge um bonitão encantador, cheio de assuntos interessantes: economia, bolsa, mercados, enfim, um cara intelectualmente superior. Pelo menos à primeira vista.


Quando ele me chamou para sair, foi um surto. Até palpitações eu senti, não sabia o que vestir, o que passar no rosto e, pior, o que conversar. Foram uns dois dias de intensos estudos econômicos, comprei até um guia sobre a bolsa para mulheres e, munida de muita informação, tive uma noite agradabílissima. Que rapaz encantador, que papo interessante! Economia, bolsa, mercados, enfim, um homem do mundo. Lembro-me que, naquela ocasião, achei ótimo que o moço não tentou nada, nem um beijinho de despedida. Aliás, estranhei um pouco, mas, como eu estava ainda abalada com o término, achei melhor assim.

Empenhei-me no estudo das siglas e termos estrangeiros: IPO (que eu só gravei porque pensava Isso Pode ser Ótimo), ON, PN, comoditties, due dilligences, home brokers, muita informação.

Como eu suspeitava, ele tinha gostado do encontro, me chamou para repetir a dose.

Mais dois dias de estudo pesado. Considerando que, no primeiro papo ele tinha me indicado algumas publicações, comecei o dia pelo site do Valor Econômico, passei pelo do The New York Times e ainda, no salão, fiquei folheando a Isto É Negócios...Queria ter muito assunto, parecer interessante e interessada nos assuntos de gente séria.



Saímos de novo e nada, niente, nothing. Papo vai, papo vem, comentei todas as notícias, até discorri sobre o balanço de um banco (que eu havia lido) e a repercussão ds resultados no valor das ações, mas o pretendente pretendido nem esboçou nenhuma vontade de encostar em mim, tão envolvido nas nossas conversas. Economia, bolsa, mercados, aquele era um homem do mundo - dele.

Já estava achando ele meio autista, monotemático. Fiquei preocupada quando ele me contou que só assistia Bloomberg. Quem, no mundo, só assiste Bloomberg?

Todavia, quando meu celular tocou pela terceira vez, me convidando pra sair, não resisti. Agora era uma questão investigativa. Até onde esse enigmático ser iria?

Mais uma vez, nadica de nada. Quer dizer, me aprofundei em alguns temas e me lembro até de ter discutido sobre a política de controle de natalidade da China e da Índia; a necessidade de superávit primário na conjuntura da crise; a aplicabilidade das regras do BID e do FMI, o papo prosperava, mas a paquera estava completamente parada, ele só queria conversar. Pior que isso, ele não mudava de assunto, não relaxava, não dava trela...Ele era muito profissional.

Eu já estava exausta de tanto papo e tanto estudo, nem queria saber mais de nada. Esperava, na melhor das hipóteses, que ele me desse um diploma e me dispensasse. Desci do carro indignada. Preferia que ele sumisse, e que sumissem também as bolsas, a economia, e os mercados...

Entretanto, estava também intrigada. Será que, para ele, paquera era como um processo de seleção de trainees, em várias etapas? Será que eu havia sido eliminada? Já me imaginei participando de "O aprendiz", com o bonitão (de cabelo estilo Donald Trump) na mesa: - Laura, você está demitida...

Porém, para minha absoluta surpresa, o moço me liga de novo, e, pela quarta vez, como eu não tinha nada para fazer, resolvi sair. Óbvio que testei todas as variáveis possíveis: hálito, maquiagem, roupa, cabelo. O quadro interno estava em ordem, a conjuntura era favorável, mas, às vezes, o problema vem de fatores externos, e esse me parecia o caso.

O encontro parecia uma arguição, uma entrevista de emprego. Por fim, até que a paquera deu um resultadinho, mas nada comparado à euforia dos IPOs. Aliás, depois de quatro longos encontros, aquilo foi mais uma prestação de contas aos investidores do que uma distribuição de dividendos. Acho que cai na enganação da bolha especulativa: superestimei o potencial, investi mais que devia e, na apuração dos resultados, o déficit ficou evidente.

Por fim, ele disse que eu era inteligente demais pra ele fazer comigo o que fazia com as outras, e que, como não queria nada sério, preferia ser meu amigo, porque, afinal, eu era a única mulher com quem ele gostava de conversar, e isso me fazia única no mundo. Para minha auto-estima, preferi acreditar. Em outras palavras, ele não estava acostumado com mulheres com mais de dois neurônios e, por isso, mereceu o apelido que minhas amigas deram: o "pregão" da bolsa.






2 comentários:

Barbara disse...

Acho que sei quem é esse!! Hahahaa O Pregão da bolsa. Não sabia do apelido. Muito apropriado, por sinal.
ps: e nosso almoço, sai ou não sai?

PatyMello disse...

Hahahahahahaahahahahahahaha ADOREI
Agora vai entender... ou somos inteligentes demais, ou de menos !!
E entendo bem o que são esses homens, pq eu estudo Administração :P Na faculdade são todos metidos a executivos, acho q só não são piores do que os aspirantes a advogados !
Beijossss