quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Jaboticabas congeladas



Amo jaboticabas. Minha avó, bonitinha, também ama jaboticabas. Para nós, é uma pena que, mesmo com todos os avanços da agricultura, só tenhamos jaboticabas uma vez por ano. É uma fruta de época.

Meu avô é uma das pessoas mais rabugentas que eu conheço. Todavia, essa característica dele não merece mais nenhuma linha desse texto. Meu avô é muito rabugento, mas ele é muito maior que seu rabujo.

Maior que o rabujo é o fato de que meu avô, Mauro, é o melhor marido que conheço. Meu pai, filho de peixe, vem colado em segundo lugar. Talvez por isso, meu padrão de qualidade para futuros marido seja tão rigoroso. Talvez a culpa do meu encalhamento seja do meu pai - e do meu avô, como Freud poderia prever.

Meu avô - e meu pai - não são afetivos, nem românticos. Não mandam flores, não escrevem bilhetes, nem presentes inesperados. Não apreciam poesias. Eles nunca querem sair pra jantar. São críticos e céticos. Têm dois pés cravados no chão.

Meu avô odeia contato físico. Qualquer ameaça de beijo é repelida instantaneamente. Ele fica sério, mal humorado, limpa qualquer vestígio - mesmo os inexistentes - de cuspe. Não aperta mão de homem.

A par de não preencher os requisitos do estereótipo de marido perfeito, é meu avô quem faz supermercado na casa, diariamente. Ele vai à padaria de manhã. Sabe o que está faltando. Procura os ingredientes mais frescos para o almoço. Compra pequenas surpresas (um bombom, um refrigerante, um canudinho de doce de leite) que me fazem uma neta muito feliz. Ele prepara o café, ajuda com a louça, pica as verduras para a salada.

É meu avô quem leva minha avó a feira todos os domingos. E busca, assim que ela liga pedindo. É ele quem olha a casa, e toma muitas providências. Ele ama a minha avó, com seus pequenos gestos. Todos os dias.

Meus avós estão casados há 54 anos. Eles têm uma casa de praia, como eu já contei aqui. Minha avó gosta de ir, ficar com as amigas, jogando buraco. Meu avó respeita, entende. Atualmente, está cansado de acompanhá-la, fica em casa, na cidade, com suas palavras cruzadas e suas muitas tarefas de todo dia. A casa fica em ordem, sempre, a espera da sua dona.

Há um mês mais ou menos, minha vó foi para a casa de praia, e as jaboticabas vieram. Meu avô, claro, comprou muitas: para mim, para meu pai, para todo mundo que chegasse.

Quando minha avó voltou da viagem, apesar de a época ter passado, ela encontrou jaboticabas congeladas, especialmente para ela, sem que ninguém mais soubesse, num cantinho discreto do freezer. Porque, na verdade, o amor do meu avô é feito dessas delicadezas e não de palavras. É feito de cuidado, respeito e carinho. É o amor maior que conheço e, apesar de ser tão grande, cabe em olhares, em observações, em suspiros. Para mim, o amor dele está em cada jaboticaba congelada.
Considerando tudo, conclui que eram para minha avó todas as jaboticabas, porque tudo o que meu avó faz inclui a minha avó. Ele sempre considera o que ela pensa e quer. Ele sabe do que ela gosta, porque ela é parte do que ele é.

E eu, bonitona encalhada que sou, acabo de descobrir o que quero. Quero alguém que seja capaz de congelar jaboticabas para mim, mesmo depois de 54 anos de casada.

13 comentários:

carolinesantana disse...

Belíssima conclusão.

Tati Roxo disse...

Lindo Laurinha!!!
Bjosss

Camila disse...

Lindo!!!! \o/
Até me emocionei =~
=***

Barbara disse...

Primeira vez que me emociono de verdade no seu blog (Mal consigo enxergar as letras do teclado)
Quem não quer um amor assim, de jaboticabas congeladas?!

Ana Guimaraes disse...

lindo, pra variar...

Marina disse...

Laura, eu já tinha lido o seu texto do Mr Big, e achei maraaa!!!! Vi no blog da Paula do Sweetest, acho que é mais difícil existir uma Mrs Big, porque a tend~encia da mulher é se apegar mais, mas com certeza eu já devo ter agido com uma em relação a algumas pessoas.
E adoreei o texto sobre o nome dos bofes no celularm eu sempre ponho " Fulano lugar tal" e tenho um truque tbm, como geralmente são eles que pegam o nossos tel, em semrpe peço pro cara me dar um toque pra eu poder gravar o número direitinho, ver quem é e decidir se deposi de passada a empolgação eu atenderei ou não hahah...
Beijinhos e bom fds!

Lívia disse...

Laura,
Você se super a cada dia!
Belissimo texto, e nos mostra que o amor é feito com pequenos gestos, lembranças e carinhos.

Glorinha.Lima disse...

amiga que eu nao conheco ainda:
EU ESTOU CHORANDO!!!!
mil bjk

bonitão créu disse...

Tem dias q acordo carente e quero alguém pra congelar as jaboticabas pra mim. Tem dias q acordo o dono do mundo e quero plantar a minha própria jaboticabeira.

Esse truque de pedir pra dar um toque é frustrante pra estratégia masculina.

Amiga Terapia disse...

amei!!! quero jabuticabas tb...

descobri que o problema de pessoas que pensam demais sobre seus relacionamentos (e dos outros por tabela) é justamente o alto padrão de referência que tem em casa... bom por um lado, e péssimo pq no mercado não tem sobrando homens como seu vô, seu pai, meu pai.. enfim, pessoas que facilmente percebemos são capazes de sentir e expressar o amor que sentem... pessoas normais que são capazes de pensar antes em alguém do que nelas! algo tão rarooooooo meu Deus, será que um dia encontramos?

tomara! "I still believe.."
beijocas!!!

Zelma disse...

Texto lindo e verdadeiro!

Parabéns!

Um abraço.

Zelma

Quel disse...

Lindo d+!

Parabéns!!!!!!

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Laura, minha linda, como vc escreve bem. Laura, cultiva esse tesouro que vc tem no coração. Esse, é seu presente para a humanidade.